Introdução ao Treino de Habilidades Sociais no Autismo Adulto
Ao longo dos anos, eu aprendi que treinar habilidades sociais em adultos com TEA (Transtorno do Espectro Autista) quase nunca é “ensinar a conversar”. O mesmo acontece com o Treino de Habilidades Sociais para Adolescentes. Na prática, é reduzir desgaste, aumentar previsibilidade nas interações e construir um jeito mais seguro de se posicionar – sem mascarar a própria identidade.
Antes de qualquer coisa: para proteger privacidade, os exemplos abaixo são casos clínicos alterados. Eles misturam situações reais comuns na clínica, com detalhes alterados. Eu faço questão dessa transparência, porque o objetivo aqui é você reconhecer padrões e sair com ferramentas, não “adivinhar quem foi”.
Outra coisa que eu repito muito: no autismo adulto, habilidade social é sempre pessoa + contexto. O mesmo “jeito de falar” pode funcionar muito bem num ambiente e virar ruído em outro. O treino não é para transformar ninguém em extrovertido. É para dar recursos para que a pessoa consiga se relacionar com menos medo, menos custo e mais dignidade – do jeito dela, com clareza e segurança.
O Treinamento de Habilidades Sociais Autismo Adulto é Poderoso!
Quando eu falo em treinamento de habilidades sociais no autismo adulto, eu não estou falando de decorar “regras sociais” como se a vida fosse uma cartilha. Eu estou falando de aumentar previsibilidade e reduzir mal-entendidos, criando um repertório que seja autêntico e aplicável no mundo real: trabalho, família, amizades, namoro, atendimentos médicos, conversas difíceis. Eu falo de Treinamento de Habilidades Sociais TCC (Terapia Cognitivo-Comportamental)
Na prática, esse treino pode acontecer em psicoterapia individual, em grupo, em orientação para familiares/parceiros e, em alguns casos, articulado com terapia ocupacional e fonoaudiologia (quando a linguagem pragmática e o sensorial pesam mais). O “como” muda, mas o coração do processo é parecido: clarear alvos, ensinar um roteiro, ensaiar, ajustar e generalizar.
Para quem é e quando faz sentido
Eu vejo o treino fazendo muito sentido quando a pessoa adulta quer:
- Reduzir conflitos por mal-entendido (“fui direto e acharam grosseria”, “não entendi a indireta e virei o vilão da história”).
- Diminuir exaustão social (a sensação de “paguei caro demais” por uma reunião, um almoço, um encontro).
- Ganhar autonomia (saber entrar e sair de conversas, pedir ajuda, recusar, negociar, reparar ruídos).
- Se posicionar com dignidade sem precisar performar um personagem social.
E eu também vejo o treino sendo um divisor de águas quando a pessoa chega com frases do tipo: “Eu sou péssimo com pessoas”. Muitas vezes, quando a gente investiga, essa frase vira algo mais preciso:
- “Eu não entendo indiretas.”
- “Eu travo quando me interrompem.”
- “Eu fico exausto depois de reuniões.”
- “Eu sou literal e acham que fui grosso.”
Quando a queixa vira específica, o treino vira específico. E aí ele finalmente começa a funcionar.
Avaliação antes do treino: quando o “social” é um retrato do funcionamento
Na avaliação (inclusive neuropsicológica, quando é o caso), eu começo alinhando expectativa: o objetivo não é “medir sociabilidade”, e sim mapear funcionamento – comunicação, flexibilidade, linguagem pragmática (uso social da linguagem), processamento sensorial, regulação emocional, funções executivas e história de desenvolvimento.
Isso muda tudo, porque o “problema social” muitas vezes é o nome que a pessoa dá para um conjunto de peças: rigidez + mudança de contexto + ansiedade + sensorial + pragmática. E se eu treino só “frases simpáticas”, eu não resolvo a engrenagem.
Exemplo clínico: “Rafael”, 32 anos (TI). Ele vinha com queixa de “problemas de equipe”. Na entrevista, aparecia um padrão: quando alguém mudava prioridade de última hora, ele respondia com mensagens longas e técnicas. O time interpretava como “deboche” ou “insistência”. No teste e nas tarefas, ficou claro um conjunto típico: rigidez cognitiva, dificuldade com mudança de contexto, e linguagem pragmática muito direta.
O treino, aqui, não foi “fazer ele ser simpático”. Foi construir scripts de transição e frases-curinga que reduzissem ruído social:
- “Entendi. Antes de mudar, você pode me dizer o objetivo e o prazo?”
- “Só pra eu alinhar: o que é prioridade hoje e o que pode ficar para depois?”
Eu gosto desse tipo de intervenção porque ela é neuroafirmativa: ele continuou claro, técnico, objetivo – só que agora soando colaborativo, sem perder identidade. Só isso já reduziu conflito.
O que exatamente a gente treina (sem virar “personagem social”)
Uma das perguntas mais úteis que eu faço é: “em quais situações você paga mais caro socialmente?” Porque adulto autista pode até “dar conta” de uma conversa, mas sair em frangalhos – e aí o custo vira isolamento.
Então eu separo os alvos em blocos bem práticos:
- Início e fim de interação (entrar/sair de conversa sem travar).
- Manutenção (perguntas que sustentam diálogo, turnos de fala, sinais de fechamento).
- Pragmática (literalidade, indiretas, intensidade, contexto).
- Reparação (consertar ruído sem escalar conflito).
- Assertividade (pedir, recusar, negociar).
- Limites e energia (dosar, prevenir sobrecarga, ser honesto sem sumir).
- Trabalho (feedback, interrupção, mudança de prioridade, reunião, escrita profissional).
E tem um princípio que eu não abro mão: se o treino vira mascaramento, ele dá errado. Eu observo que dá errado quando o treino vira “mascaramento”: a pessoa tenta performar um personagem social e sai exausta. O que dá certo é quando o treino vira autenticidade estruturada: ser quem é, com ferramentas melhores.
Você já conhece meu Grupo de Habilidades Sociais?
Scripts, frases-curinga e “roteiros de transição” (o segredo do adulto no trabalho)
Eu sou muito fã de roteiro quando ele é usado como ponte – não como prisão. Principalmente em ambientes de trabalho, onde uma frase “certa” pode evitar um conflito enorme.
Por exemplo, no caso do “Rafael” (TI), a dor não era “comunicar” em si. Era o momento de mudança: prioridade alterada, contexto mudado, expectativa implícita. A gente não treinou “ser simpático”. A gente treinou reduzir ruído:
- Checagem de objetivo: “Entendi. Antes de mudar, você pode me dizer o objetivo e o prazo?”
- Alinhamento de prioridade: “Só pra eu alinhar: o que é prioridade hoje e o que pode ficar para depois?”
Quando a pessoa tem um repertório desses, ela para de “adivinhar o social” e começa a construir previsibilidade. E isso, para muitos adultos com TEA, é quase terapêutico por si só.
Regulação emocional e higiene sensorial: quando o “isolamento” é proteção
Não dá para falar de habilidades sociais no autismo adulto sem falar de sensorial e regulação emocional. Senão a pessoa até aprende a frase, mas na hora H entra em shutdown (travamento) quando a emoção sobe.
Exemplo clínico: “Camila”, 28 anos (saúde). Ela tinha histórico de “sumir” de amizades. No mapeamento, surgiram hipersensibilidades (ruído, toque) e muita ansiedade antecipatória (“vou falar errado, vão me julgar”). O ponto-chave foi perceber que parte do “isolamento” era proteção contra sobrecarga sensorial e emocional, não desinteresse.
Então o plano incluiu treino de habilidades sociais + higiene sensorial (combinar encontros curtos, lugares previsíveis, pausa programada) e estratégias de regulação. Eu gosto desse tipo de desenho porque ele respeita a realidade do corpo. Social não é só conversa: é energia, ruído, previsibilidade, controle de saída.
Linguagem pragmática: ser literal não é ser “sem educação”
Muita gente adulta chega com a dor: “Eu sou literal e acham que fui grosso.” Aqui eu trabalho duas frentes:
- Tradução de intenção: ensinar formas de manter a mesma honestidade com menos atrito.
- Checagem explícita: reduzir adivinhação (“você quis dizer X ou Y?”).
Eu costumo ensinar “molduras” que preservam a identidade da pessoa (clareza) e diminuem ruído:
- “Posso ser bem direto? Meu objetivo é ajudar, não criticar.”
- “Do jeito que eu entendi foi assim… é isso mesmo ou eu perdi uma parte?”
- “Quando você fala ‘depois’, é hoje, essa semana, ou sem prazo?”
Percebe como não tem teatro? Tem estrutura. E estrutura, para o TEA adulto, costuma ser libertadora.
Assertividade no autismo adulto: pedir, recusar e negociar sem explodir depois
Um ponto muito comum na clínica é o “engole tudo e depois explode” – muitas vezes por mensagem, quando a pessoa finalmente se sente segura para falar. Eu prefiro prevenir essa escalada ensinando uma estrutura simples, repetível e objetiva.
Exemplo clínico: “Lívia”, 30 anos (trabalho). Ela evitava feedback e depois explodia por mensagem. Trabalhamos assertividade (pedir, recusar, negociar) com uma estrutura simples:
- Fato: “Na reunião de hoje, eu fui interrompida três vezes.”
- Impacto: “Isso me fez perder a linha e eu não consegui concluir.”
- Pedido: “Da próxima vez, eu preciso terminar meu raciocínio antes de perguntas.”
Primeiro, ela ensaiou comigo. Depois, enviou por escrito ao gestor. O retorno foi positivo e ela ganhou confiança. Eu gosto desse exemplo porque ele mostra o que eu vejo repetidamente: quando a pessoa tem um mapa, ela deixa de travar.
Empatia sem atuação: quando “mostrar” vira algo treinável
Outra dor clássica: “eu sinto, mas não sei como mostrar”. E quando tenta, parece falso. Isso é muito real em adultos com TEA, especialmente quando a história de vida ensinou que “do jeito que eu faço, dá errado”.
Exemplo clínico: “Bruno”, 35 anos (relacionamento). Ele era descrito como “frio” e “sem empatia”. Na sessão, ele dizia: “Eu sinto, mas não sei como mostrar. E quando eu tento, parece falso.”
O treino foi traduzir empatia em frases objetivas (sem teatralidade), por exemplo:
- “Eu entendi que isso foi difícil pra você.”
- “O que você precisa de mim agora: ouvir, ajudar a resolver ou só ficar junto?”
A mudança foi enorme porque ele passou a ter um mapa do que fazer. A parceira relatou: “Agora eu me sinto acompanhada”. Isso é um exemplo perfeito de autenticidade estruturada: ele não virou outra pessoa. Ele só ganhou uma ponte.
Terapia em grupo: onde o social vira laboratório seguro
Em grupo, o treino acontece no lugar mais potente: a interação real. Mas precisa de estrutura, senão vira um espaço em que os mais ansiosos se calam e os mais verbais dominam. Eu organizo assim:
- Contrato de convivência (regras claras, inclusive sobre interrupções).
- Rodadas previsíveis (tempo igual, direito de passar).
- Exercícios graduais (do mais fácil ao mais desafiador).
- Feedback treinado (combinado de não humilhar, ser específico).
Exemplo clínico: grupo de adultos, 8 participantes. Uma cena comum é quando alguém faz um comentário muito literal e o outro interpreta como crítica. Numa sessão, “Joana” disse para “Edu”: “Isso não faz sentido”. Ele ficou tenso e respondeu: “Você sempre me invalida”.
Eu pausei e transformei em treino ao vivo. Pedi para Joana reformular com intenção colaborativa:
- “Do jeito que você falou, eu não consegui acompanhar. Você pode explicar por outro caminho?”
E pedi para Edu checar antes de concluir:
- “Quando você diz ‘não faz sentido’, você quer dizer que discorda ou que não entendeu?”
Esse tipo de treino ensina duas habilidades centrais: reparação (consertar um ruído) e checagem de intenção (não adivinhar o pior).
Entrar, manter e sair de conversa: previsibilidade que reduz ansiedade
Muitos adultos com TEA relatam: “Eu não sei entrar numa conversa sem parecer estranho”. Então eu treino fórmulas simples e honestas. Elas parecem básicas, mas reduzem muito a ansiedade porque dão previsibilidade:
- Entrada: “Posso me juntar? Do que vocês estão falando?”
- Manutenção: “Entendi. O que te fez pensar isso?”
- Saída: “Vou pegar uma água e já volto. Gostei de ouvir vocês.”
Eu prefiro frases assim porque elas não exigem performance social sofisticada. Elas são diretas, respeitosas e funcionais.
Limites e energia social: manter vínculo sem se apagar
No grupo (e no individual), eu trabalho muito limites. Um participante dizia “sim” pra tudo e depois sumia. Então treinamos uma resposta que protege vínculo e protege a pessoa:
- “Eu quero ir, mas preciso confirmar meu nível de energia no dia. Posso te responder amanhã?”
Isso é ouro para o autismo adulto, porque muita ruptura social não acontece por falta de afeto, e sim por falta de estratégia de dosagem. E dosar é uma habilidade social – só que ninguém chama assim.
Psicoterapia individual: treino como ponte entre entender e conseguir fazer
No individual, o treino funciona melhor quando vira micro-missões. Não adianta entregar uma lista de “10 técnicas” se a pessoa entra em shutdown quando a emoção sobe. Então eu faço três coisas:
- Defino um comportamento-alvo (pequeno e observável).
- Ensino um roteiro (com palavras específicas).
- Treino em sessão (ensaio, ajustes, repetição).
Eu gosto de micro-missões porque elas criam aprendizado acumulativo. O cérebro não precisa “inventar” do zero em toda interação. Ele reconhece um padrão e puxa uma ferramenta.
Autismo adulto no trabalho: reuniões, interrupções e mudanças de prioridade
Trabalho é um dos contextos em que mais aparece a frase: “Eu fico exausto depois de reuniões.” Eu vejo duas chaves aqui:
- Previsibilidade (agenda, pauta, critérios de sucesso, próximo passo).
- Frases de alinhamento (para reduzir interpretação e ruído).
Eu já citei as frases-curinga do “Rafael”, mas eu gosto de expandir o repertório com variações que a pessoa escolhe conforme a identidade dela:
- “Pra eu te responder com precisão, você quer uma visão geral ou o passo a passo?”
- “Só confirmando: quando você diz ‘urgente’, é pra hoje ou pra agora?”
- “Eu posso fazer A ou B primeiro. Qual traz mais impacto pro time?”
- “Eu entendi a demanda. Você quer que eu documente por escrito pra ficar claro?”
Repara: tudo isso é clareza. Não é “jeito social bonito”. É comunicação funcional que diminui conflito.
Quando o treino falha: metas erradas e mascaramento
Eu observo que dá errado quando o treino vira “mascaramento”: a pessoa tenta performar um personagem social e sai exausta. Aí o treino vira mais uma obrigação e, com o tempo, aumenta o risco de afastamento e burnout.
O que dá certo é quando o treino vira autenticidade estruturada: ser quem é, com ferramentas melhores. Por isso eu gosto de metas do tipo:
- “Quero reduzir mal-entendidos” (não “quero ser carismático”).
- “Quero ter um roteiro pra feedback” (não “quero parecer normal”).
- “Quero sair de conversa sem sumir” (não “quero ser sociável sempre”).
Resultados que eu mais vejo quando o treino é bem feito
- Menos conflitos por mal-entendido (principalmente no trabalho e família).
- Menos isolamento por exaustão (a pessoa aprende a dosar).
- Mais autonomia social (roteiros viram repertório, não prisão).
- Mais autocompaixão: a pessoa para de se chamar de “defeituosa” e entende que faltavam ferramentas e contexto.
Treino de habilidades sociais no TEA adulto não é transformar alguém em extrovertido. É dar recursos para que a pessoa consiga se relacionar com menos medo, menos custo e mais dignidade – do jeito dela, com clareza e segurança.
Referências científicas e leituras recomendadas
- Revisão sistemática e meta-análise sobre treino de habilidades sociais em grupo em adultos com TEA (Dubreucq et al., 2022 – PubMed)
- Ensaio clínico randomizado do PEERS para jovens adultos com TEA (Laugeson et al., 2015 – PubMed)
- PEERS para jovens adultos (Gantman et al., 2012 – PubMed)
- Revisão de intervenções psicossociais para adultos com TEA (Bishop-Fitzpatrick et al., 2013 – PubMed Central)
- Diretriz NICE: Autismo em adultos — diagnóstico e manejo (CG142)
- Ministério da Saúde (Brasil): Diretrizes de Atenção à Reabilitação da Pessoa com TEA (PDF)
- National Autistic Society: estratégias e intervenções (visão geral, cautelas e escolhas informadas)