🤢 Introdução sobre: Ansiedade dá enjoo
Se você está lendo isso porque sentiu um embrulho no estômago e pensou “pronto, vou passar mal”, eu te entendo. Na prática clínica, eu vejo esse combo aparecer muito: preocupação + corpo em alerta = náusea, enjoo, ânsia, às vezes um refluxo que parece “do nada”. E o mais confuso é que, quando bate, dá a sensação de que o estômago “mandou em você”.
Eu gosto de começar com um alívio: enjoo por ansiedade crônica existe e é mais comum do que parece. O corpo e a mente estão conectados. Quando a cabeça acelera, o sistema nervoso muda a respiração, a circulação e a digestão. Não é dramatização, não é fraqueza, não é invenção.
Eu também vou ser bem honesta: nem toda náusea é ansiedade. Então a gente vai falar de sinais de alerta, de quando investigar outras causas, e de como fazer um plano que une alívio imediato + tratamento de base.
Ao longo dos anos, trabalhando no SUS e na clínica, aprendi a traduzir esse sintoma em linguagem simples: o corpo não está inventando. A ansiedade muda a respiração, a química do estresse e o jeito que o intestino se movimenta. É como se o organismo dissesse “tem algo perigoso aqui”, mesmo quando o “perigo” é uma reunião, uma prova, uma mensagem no celular.
Neste texto eu vou te mostrar, com um olhar bem humano, por que a ansiedade dá enjoo, o que fazer na hora e como tratar a raiz. E também vou falar do que eu observo na avaliação neuropsicológica quando o corpo entra nesse modo alerta. Vamos juntos.
🤢 Quando a busca é “ansiedade da enjoo”: o que esse sintoma costuma dizer
Tem gente que descreve como “mareio”, outros como “um nó na boca do estômago”, outros como “fome e enjoo ao mesmo tempo”. Quando a pessoa digita “ansiedade da enjoo” no Google, normalmente ela está tentando entender uma coisa: por que o corpo parece descompassar justamente quando a mente está preocupada.
Nos quase cinco anos em que trabalhei no SUS, vi o enjoo aparecer em gente de todo tipo: adolescente antes da prova, cuidador exausto, homem que tinha vergonha de chorar e só dizia que estava “passando mal”, mulher com três jornadas e um corpo que já não aguentava mais. O que mudava era a história, mas o corpo contava sempre a mesma mensagem: alerta demais, descanso de menos.
Na minha experiência, o enjoo aparece em três cenários bem comuns: (1) antes de eventos avaliativos (apresentações, entrevistas, provas), (2) em situações sociais que geram vergonha ou medo de julgamento, e (3) depois de períodos longos de estresse “segurando as pontas”, quando o corpo finalmente cobra a conta.
Eu me lembro direitinho de uma tarde no SUS em que uma paciente entrou na sala com uma sacolinha na mão. Ela disse: “Thais, eu trouxe o que eu como quando dá o enjoo”. Era uma bolacha água e sal e uma garrafinha de água. Ela não estava “fazendo charme”: ela estava tentando sobreviver ao dia, porque toda vez que precisava sair de casa, o estômago virava.
🧭 Como saber se o enjoo está “colado” na ansiedade
- Ele aparece em momentos de antecipação: véspera, manhã de compromisso, fila, sala de espera.
- Ele melhora quando você se acalma: depois de respirar, conversar com alguém, sair do gatilho.
- Ele vem com outros sinais de alerta: coração acelerado, suor frio, tremor, urgência para ir ao banheiro, pensamento acelerado.
- Ele repete um padrão: sempre em lugares/situações parecidas (ônibus, reunião, apresentação).
Quando esse padrão está claro, a pergunta deixa de ser “como eu faço o enjoo sumir?” e vira: “como eu regulo meu sistema nervoso para ele parar de disparar?” Se você quiser mapear melhor o quadro completo, vale ver também sintomas da ansiedade.
🧠 O ciclo “medo do enjoo” que mantém o problema
Um detalhe importante: muita gente não tem só ansiedade — tem ansiedade da própria sensação. A pessoa começa a enjoar, pensa “vou vomitar”, o coração acelera, a respiração muda, e aí o enjoo aumenta. Isso vira um ciclo: enjoo → medo → mais ansiedade → mais enjoo.
Eu também vi gente melhorar quando parou de lutar contra o sintoma e passou a dizer: “ok, eu estou enjoada e ainda assim posso caminhar até a padaria”. Parece pouco, mas isso é exposição gentil. O corpo aprende por experiência, não por discurso.
- Sinal de alerta emocional: quando você evita lugares, comidas ou compromissos “porque vai dar enjoo”, a ansiedade vai ganhando território.
- Boa notícia: esse ciclo é treinável. Com técnica e repetição, o corpo reaprende que sensação não é perigo.
😣 Quando vira fobia de vomitar (emetofobia)
Em alguns casos, o foco principal vira o medo de vomitar em público. A pessoa passa a escanear o estômago o tempo inteiro, evita transporte, restaurantes, consultas, viagens. E isso dá muito sofrimento. A boa notícia é que, com psicoterapia (principalmente exposição gradual e trabalho com pensamentos), dá para recuperar a vida.
🧩 “porque a ansiedade causa enjoo”: o que acontece no corpo
Vamos abrir essa “caixa-preta” do organismo. Quando você se sente ameaçado (mesmo por uma ameaça simbólica, tipo ser criticado), o corpo ativa a resposta de luta, fuga ou congelamento. Isso mexe com adrenalina, cortisol, tensão muscular e principalmente com a respiração.
🧠 “Modo emergência” e digestão em segundo plano
Do ponto de vista biológico, faz sentido: se o corpo acha que precisa correr ou se defender, ele não quer gastar energia digerindo. Então ele muda secreções, motilidade intestinal e sensibilidade visceral. Algumas pessoas têm diarreia; outras sentem estômago travado; outras ficam com refluxo e náusea sem vômito.
🌬️ Respiração curta = mais tontura e mais náusea
Na ansiedade, é comum a respiração ficar alta e rápida. Às vezes você nem percebe. Só que isso muda o equilíbrio de gases no sangue, aumenta tontura, dá sensação de “fraqueza” e pode piorar enjoo. É por isso que respirar é “básico”, mas é básico porque funciona.
Uma coisa que eu aprendi atendendo no SUS é que orientar só “respira fundo” pode soar vazio, porque a pessoa está no modo sobrevivência. Então eu gosto de ensinar respiração com função: inspirar mais curto, soltar mais longo, como se você estivesse apagando uma vela devagar. Em poucos minutos, a náusea costuma reduzir um ponto ou dois, e isso já devolve controle.
🧠↔️🦠 Eixo intestino-cérebro: o “segundo cérebro” reagindo
O intestino tem um sistema nervoso próprio e conversa com o cérebro o tempo todo. Em estado de alerta, o corpo tende a despriorizar a digestão. Pode acelerar o intestino (diarreia), aumentar ácido (queimação), ou dar aquela sensação de estagnação (enjoo sem vomitar).
- Se você tem gastrite, refluxo ou intestino irritável, a ansiedade costuma “acender” esses sintomas com mais facilidade.
- Cheiros, lugares e pensamentos entram na conta: o cérebro aprende associações (“sala de aula = enjoo”), e o corpo responde antes mesmo de você querer.
- Jejum prolongado pode piorar: estômago vazio + ansiedade = mais acidez, mais tremor, mais mal-estar.
Nos grupos, eu também gosto de trabalhar a vergonha: aquela sensação de “se eu enjoar, vão perceber, vão me julgar”. A gente faz ensaio de frases simples (“posso respirar um pouco aqui?”, “vou tomar uma água e já volto”), porque ter um plano reduz o pânico. É impressionante como o corpo se acalma quando a mente tem um roteiro, mesmo que o enjoo apareça.
🧪 O que eu observo na avaliação neuropsicológica
Em avaliação neuropsicológica, eu já vi um padrão bem frequente em quem tem enjoo com ansiedade: atenção muito colada no corpo e uma dificuldade de desligar o “monitoramento interno”. A pessoa percebe qualquer mudança mínima — um ruído no estômago, uma saliva diferente, um calor na pele — e interpreta como ameaça. Quando a gente treina flexibilidade atencional (sem violência, no ritmo da pessoa), os sintomas físicos costumam cair.
Na prática, eu vejo muito “túnel atencional”: a pessoa perde a noção do todo e fica só no sintoma. E aqui uma mudança pequena é enorme: aprender a alternar foco (corpo ↔ ambiente) sem brigar consigo.
- Exemplo simples: em vez de “será que vou vomitar?”, mudar para “o que eu vejo aqui? quantos sons eu escuto agora?”.
- Outro exemplo: usar uma frase âncora (“meu corpo está em alerta, isso passa”) e repetir como quem volta para casa.
Uma parte importante da avaliação neuropsicológica é diferenciar ansiedade de outras questões que também mexem com o corpo, como TDAH, transtornos do sono e uso excessivo de estimulantes. Às vezes a pessoa vive cansada, desorganizada, se culpa, e a ansiedade vem depois — como consequência. Quando a gente organiza rotina, ajusta expectativas e trata a base, a náusea diminui quase como efeito colateral positivo.
🌿 “por que ansiedade da enjoo”: diferenças entre ansiedade, pânico e estresse
A pergunta “por que ansiedade da enjoo” aparece muito quando a pessoa tenta comparar experiências: “eu fico ansiosa e enjoada, mas minha amiga tem ansiedade e não sente isso”. E faz sentido: cada corpo expressa o alerta de um jeito.
⚡ Ansiedade antecipatória
É aquela que começa antes do evento: você imagina cenários, ensaia conversa, pensa no “e se der errado”. O enjoo aqui costuma ser gradual: vai crescendo conforme o pensamento se repete.
🚨 Ataque de pânico
No pânico, o pico é rápido. A pessoa pode sentir náusea, vontade de ir ao banheiro, tremor, falta de ar, formigamento, sudorese fria. Muitas vezes ela acha que é algo grave, e isso intensifica. O enjoo vira parte desse “alarme falso”.
🧱 Estresse prolongado
No estresse de longa duração, o enjoo pode virar um “companheiro” diário, principalmente pela manhã ou antes de comer. Aqui eu olho muito para rotina, sono, cafeína, e para o quanto a pessoa está sustentando a vida no modo “no limite”.
Teve uma mãe solo que sempre enjoava na semana do aluguel. Ela dizia: “meu estômago sabe a data”. A gente trabalhou planejamento financeiro possível, rede de apoio e, principalmente, autocompaixão — porque ela se cobrava como se estivesse sozinha por escolha. Conforme ela parou de se atacar, o corpo parou de atacar também.
🧯 Guia prático: “enjoo por ansiedade o que fazer” sem piorar a crise
Se você está no meio do aperto, o objetivo é simples: reduzir o alarme do sistema nervoso. Não é “controlar o estômago na marra”. É acalmar o corpo para o estômago parar de receber sinal de perigo.
⏱️ Roteiro de 5 minutos (para a hora H)
- Nomeie: “isso é ansiedade no meu corpo”. Só de nomear, o alarme perde força.
- Postura: pés no chão, ombros soltos, mandíbula destravada, barriga sem apertar.
- Respiração 4–6: puxe o ar pelo nariz contando 4, solte pela boca contando 6. Repita por 2–3 minutos.
- Âncora sensorial: escolha 1 coisa para ver, 1 para tocar, 1 para ouvir. (Tira as “antenas” do estômago.)
- Goles pequenos: água ou chá morno; evite engolir grandes volumes de uma vez.
- Frase curta: “não gosto, mas eu consigo atravessar”.
Na clínica, eu costumo combinar duas coisas ao mesmo tempo: aliviar o agora (técnicas na crise) e tratar o padrão (psicoterapia, rotina, às vezes psiquiatria). Quando só a técnica entra, a pessoa até melhora, mas volta a cair nos mesmos gatilhos. Quando só a conversa entra, a pessoa entende tudo, mas continua passando mal. Juntas, as duas coisas viram um caminho sólido.
🍞 O que comer (e o que evitar) quando o estômago está sensível
Eu não gosto de lista rígida, porque cada corpo reage de um jeito. Mas existem padrões bem comuns quando o enjoo é de ansiedade:
- Melhor tolerância: alimentos secos e simples (torrada, bolacha água e sal, arroz, banana), porções pequenas.
- Hidratação: água em goles, água de coco, chá morno. (Evite muito gelado se isso te dá contração.)
- Cuidado com: fritura, pimenta, cafeína em jejum, álcool, grandes volumes de comida de uma vez.
- Se o enjoo é de manhã: experimente algo mínimo antes do café (uma fruta, uma torrada).
E sim: comer pouco e muitas vezes costuma funcionar melhor do que “ficar sem comer para não vomitar”.
🛠️ “enjoo ansiedade como melhorar”: estratégias que funcionam no dia a dia
Melhorar não é virar uma pessoa “sem ansiedade”. É ficar com uma ansiedade mais proporcional, e com um corpo que não dispara enjoo por qualquer sinal. Quando alguém me pergunta “enjoo ansiedade como melhorar”, eu penso em três camadas: corpo, mente e contexto.
🏃 Corpo: rotina que estabiliza
- Comer em horários previsíveis (mesmo que porções pequenas) reduz o “vazio com enjoo”.
- Diminuir cafeína (principalmente em jejum) faz diferença para muita gente.
- Movimento diário (caminhada, alongamento, dança) regula estresse e melhora digestão.
- Sono: se você dorme mal, o corpo acorda mais reativo. É como começar o dia já com o alarme ligado.
- Telas e notícias: se o cérebro acorda com rolagem infinita, ele acorda em alerta. Tente trocar os primeiros 10 minutos do dia por algo mais neutro.
🧠 Mente: treinar pensamentos sem entrar na espiral
Aqui entra um trabalho bem “pé no chão”: perceber o pensamento catastrófico (“vou vomitar, vai ser horrível”) e construir uma resposta mais realista (“eu já senti isso antes, o pico passa, posso pedir ajuda”). Não é positividade tóxica. É realismo gentil.
Na psicoterapia individual, eu costumo perguntar: “em que momento do dia o enjoo começa?” e “o que você está tentando engolir sem dizer?”. Às vezes a resposta é literal (café em jejum, noites mal dormidas), mas muitas vezes é emocional: engolir raiva, engolir medo, engolir um ‘sim’ que era para ser ‘não’.
🗓️ Um exercício que eu gosto: diário do enjoo
Por 7 dias, anote: horário, intensidade (0–10), o que você estava pensando, o que comeu, e o que ajudou. Esse diário revela padrões que a gente não vê no automático. E dá uma sensação boa de “ok, eu consigo mapear isso”.
Na clínica, eu já vi muita gente melhorar quando percebe que o enjoo aparece sempre depois de passar horas sem comer, ou sempre após café forte, ou sempre antes de um contato específico que gera ansiedade. O corpo fala em padrões.
🧩 Contexto: reduzir ameaça real e construir apoio
Tem vezes que o tratamento não é só “trabalhar a mente”. É ajustar o ambiente: limites no trabalho, conversa difícil, reorganizar rotina, pedir ajuda. E sim, isso dá medo. Mas viver tentando “aguentar tudo” custa caro no corpo.
Teve um rapaz que dizia que o enjoo era “um rádio ligado” no estômago. Ele acordava bem, mas bastava olhar o celular e ver mensagens acumuladas do trabalho que a náusea subia. A gente foi percebendo que não era o celular em si: era a sensação de estar atrasado, de falhar, de ser cobrado o tempo inteiro. Quando ele começou a organizar pequenas prioridades e a conversar com o chefe, o estômago foi ficando mais quieto.
E se você sente que está sozinho nessa, eu reforço: apoio social é fator de proteção. Não precisa ser um monte de gente. Pode ser uma pessoa segura.
💊 “como tratar o enjoo da ansiedade”: psicoterapia, hábitos e, às vezes, remédio
A frase “como tratar o enjoo da ansiedade” é, no fundo, uma pergunta sobre raiz: “eu quero parar de viver refém do meu estômago”. E eu acredito muito nesse caminho, porque eu vejo acontecer.
🗣️ Psicoterapia individual
Em terapia, a gente trabalha três frentes: entender gatilhos, reduzir a hipervigilância do corpo e ampliar repertório de enfrentamento. TCC (terapia cognitivo-comportamental) ajuda bastante com reestruturação de pensamentos e exposição gradual; ACT (aceitação e compromisso) ajuda a mudar a relação com o desconforto; e abordagens focadas no corpo (respiração, aterramento, relaxamento) são ótimas para a parte fisiológica.
👥 Psicoterapia em grupo
Também já acompanhei pessoas em psicoterapia em grupo que tinham medo de vomitar em público. E não era frescura. Era um pavor tão grande que elas evitavam ônibus, restaurantes, salas fechadas. No grupo, quando alguém dizia “eu sinto isso também”, dava para ver o corpo relaxar um pouco, como se a vergonha perdesse força.
Nos grupos, eu também gosto de trabalhar a vergonha: aquela sensação de “se eu enjoar, vão perceber, vão me julgar”. A gente faz ensaio de frases simples (“posso respirar um pouco aqui?”, “vou tomar uma água e já volto”), porque ter um plano reduz o pânico. É impressionante como o corpo se acalma quando a mente tem um roteiro, mesmo que o enjoo apareça.
Eu já conduzi grupos de psicoeducação em que a gente ensaiava exatamente isso: nomear o sintoma (“é ansiedade”), ajustar a respiração, ficar no ambiente por mais alguns minutos e perceber: o pico passa. Não é mágica. É treino.
🩺 Quando considerar avaliação médica e medicação
Quando o paciente relata enjoo e ansiedade, eu sempre investigo também se há história de enxaqueca, refluxo, uso de medicamentos, e até mudanças hormonais (TPM, menopausa). Eu não gosto de reduzir tudo a “psicológico”, porque o corpo é um sistema inteiro. Ao mesmo tempo, quando exames estão ok e o padrão é claro, é um desperdício de sofrimento não tratar a ansiedade de frente.
Se o enjoo é frequente, intenso, ou vem com perda de peso, vômitos persistentes, sangue, desmaios, dor forte, febre, vale investigar com clínico e/ou gastro para descartar causas orgânicas. E em alguns casos, a combinação de psicoterapia com acompanhamento psiquiátrico (e medicação) pode ser indicada — especialmente quando há transtorno de ansiedade mais estruturado, pânico ou depressão.
Eu sempre digo: medicação não é “fraqueza”, mas também não é a única saída. Quando ela entra de forma bem acompanhada, pode baixar o volume do alarme para a pessoa conseguir fazer o trabalho terapêutico com mais fôlego.
🧠 Quando a avaliação neuropsicológica ajuda de verdade
Algumas pessoas chegam com enjoo e ansiedade, mas por trás existe uma combinação de desatenção, privação de sono e autocobrança intensa. A avaliação neuropsicológica pode ajudar a entender se há TDAH, dificuldades executivas, ou um padrão de funcionamento que mantém a vida no “apagar incêndio”. Quando a base organiza, o corpo agradece.
Uma última coisa: eu nunca prometo que o sintoma some de um dia para o outro. Mas eu vejo, com muita frequência, a pessoa recuperar autonomia em semanas: ela volta a sair, volta a comer com mais tranquilidade, volta a viajar. E quando a autonomia volta, o enjoo perde o palco.
🤰 “náusea ansiedade”: quando investigar outras causas
Nem toda “náusea ansiedade” é ansiedade, e isso é importante. Às vezes a ansiedade até está presente, mas coexistem outras causas. Eu prefiro uma postura segura: acolher o sintoma, mas não romantizar.
- Procure avaliação médica se houver vômitos persistentes, sinais de desidratação, sangue no vômito ou nas fezes, febre alta, dor abdominal forte ou perda de peso sem explicação.
- Considere outras possibilidades quando o enjoo vem com dor de cabeça forte (enxaqueca), tontura giratória (labirintite), queimação intensa (refluxo/gastrite), atraso menstrual (gravidez) ou após iniciar algum medicamento.
- Se a náusea te impede de viver (trabalho, estudo, social), isso já é motivo suficiente para buscar ajuda profissional, mesmo que exames estejam normais.
Em vários casos, o que não funcionou foi tentar cortar tudo: cortar comida, cortar social, cortar compromissos, cortar emoção. A pessoa fica com a vida pequena, e o enjoo vira o centro de tudo. O que funcionou melhor foi fazer o contrário: ampliar a vida aos poucos, com segurança, e ensinar o corpo que desconforto não é catástrofe.
Ao mesmo tempo, quando exames estão ok e o padrão é “enjoo aparece com preocupação”, vale muito olhar para ansiedade como causa principal. Não porque seja “coisa da sua cabeça”, mas porque é coisa do seu sistema nervoso.
Eu também já vi a náusea virar um sinal de trauma: gente que passou por situações de ameaça real e ficou com o corpo sempre pronto para o pior. Nesses casos, além de técnicas de ansiedade, a gente precisa trabalhar segurança, memória emocional e reconstrução de confiança. Quando isso acontece, a melhora não é só “parar de enjoar”, é voltar a habitar o próprio corpo.
🧒 Crianças e adolescentes
Quando é criança/adolescente, eu olho com carinho para escola, social e família. Enjoo antes de aula pode ser ansiedade de separação, bullying, pressão, ou até rotina desregulada de sono e alimentação. O foco é proteger, nomear emoções e criar estratégias com os adultos responsáveis.
Já atendi adolescente que enjoava antes da escola e a família achava que era “corpo mole”. Na verdade, ele sofria bullying e tinha medo de entrar na sala. Quando a gente trabalhou proteção, comunicação com a escola e habilidades sociais, o enjoo foi desaparecendo. Foi um lembrete forte de que o sintoma não é manipulação: é linguagem do corpo.
🌱 Fechamento: dá para sair desse ciclo
Quando o paciente relata enjoo e ansiedade, eu sempre investigo também se há história de enxaqueca, refluxo, uso de medicamentos, e até mudanças hormonais (TPM, menopausa). Eu não gosto de reduzir tudo a “psicológico”, porque o corpo é um sistema inteiro. Ao mesmo tempo, quando exames estão ok e o padrão é claro, é um desperdício de sofrimento não tratar a ansiedade de frente.
Se eu pudesse resumir em uma frase seria: o enjoo é um mensageiro, não um inimigo. Ele costuma aparecer quando o corpo está tentando te proteger do jeito que aprendeu. Com psicoeducação, técnicas e suporte, dá para o corpo aprender outro caminho.
Por fim, uma frase que eu repito muito, porque muda a relação com o sintoma: o enjoo não é inimigo, ele é um alarme sensível. A gente não precisa quebrar o alarme. A gente precisa regular o sistema que o está disparando.
E se você está cansado de procurar solução sozinho, eu deixo um convite simples: busque acompanhamento. Às vezes o que falta não é “mais força”, é um plano, alguém do lado, e um jeito mais gentil de conduzir o seu próprio corpo.
🧊 Se você está no trabalho, no ônibus ou em um lugar “sem fuga”
Nessas horas, o sofrimento é duplo: o enjoo + o medo de alguém perceber. Eu costumo orientar um plano discreto, sem drama, mas bem eficaz.
- Micro-movimento: descruze pernas e braços, solte a barriga (sim, a gente contrai sem perceber).
- Olhar periférico: em vez de “encarar” um ponto, amplie o campo visual. Isso manda ao cérebro o recado de que você não está em perigo iminente.
- Objeto âncora: segure algo frio ou com textura (chave, elástico, garrafinha). É grounding simples.
- Frase neutra para usar se precisar: “acho que preciso de um minuto de ar/água, já volto”. Ter permissão reduz pânico.
- Evite checar o sintoma a cada 5 segundos: cheque a cada 2 minutos, como um experimento. Menos checagem = menos alarme.
Uma coisa que eu aprendi atendendo no SUS é que orientar só “respira fundo” pode soar vazio, porque a pessoa está no modo sobrevivência. Então eu gosto de ensinar respiração com função: inspirar mais curto, soltar mais longo, como se você estivesse apagando uma vela devagar. Em poucos minutos, a náusea costuma reduzir um ponto ou dois, e isso já devolve controle.
🧗 Exposição gradual: o corpo aprende por experiência
Quando o enjoo virou motivo de evitar coisas (ônibus, fila, restaurante, sala de aula), a melhora quase sempre passa por exposição gradual. Não é se jogar no pior cenário. É construir passos pequenos e repetíveis, para o corpo aprender que desconforto não é perigo.
- Escolha 1 situação-alvo: por exemplo, “andar de ônibus por 10 minutos”.
- Crie uma escala: ponto de ônibus (2/10), entrar e sentar (4/10), dar uma volta curta (6/10), ir até um destino (8/10).
- Treine com técnica: respiração 4–6 + âncora sensorial antes e durante.
- Fique até o pico cair: o aprendizado acontece quando você percebe “subiu e desceu”.
- Repita até estabilizar: o corpo aprende com repetição, não com uma vitória isolada.
Em vários casos, o que não funcionou foi tentar cortar tudo: cortar comida, cortar social, cortar compromissos, cortar emoção. A pessoa fica com a vida pequena, e o enjoo vira o centro de tudo. O que funcionou melhor foi fazer o contrário: ampliar a vida aos poucos, com segurança, e ensinar o corpo que desconforto não é catástrofe.
🗺️ Plano de 30 dias para reduzir o enjoo por ansiedade
Eu gosto de plano porque ele tira a sensação de “estou perdido”. Não precisa ser perfeito. Precisa ser fazível. A ideia aqui é criar um mês de consistência, e não um mês de heroísmo.
📅 Semana 1: estabilizar corpo e mapear gatilhos
- Diário do enjoo por 7 dias (horário, intensidade, pensamento, comida, sono).
- Regular refeições (pequenas porções, horários previsíveis).
- Reduzir cafeína em jejum e observar impacto.
- Respiração 4–6 2x ao dia, mesmo sem crise (treino fora do fogo).
🧠 Semana 2: treinar mente (sem brigar com ela)
- Escolha 1 pensamento repetitivo (“vou vomitar”) e escreva uma resposta realista (“o pico passa, eu sei o que fazer”).
- Pratique âncora sensorial 1x por dia (ver/tocar/ouvir).
- Redes sociais com limite em horários que te deixam mais reativo.
🧗 Semana 3: exposição gradual em passos pequenos
- Escolha 1 situação evitada e faça uma escala de passos.
- Treine 3 vezes na semana e anote como o pico sobe e desce.
- Comemore o processo (você está treinando o sistema nervoso, não provando valor).
🤝 Semana 4: consolidar apoio e tratar a raiz
- Marcar/retomar psicoterapia se possível.
- Conversar com 1 pessoa de confiança sobre o que você sente (reduz vergonha e isolamento).
- Se sintomas persistirem intensos, avaliar consulta médica/psiquiátrica para um plano integrado.
Uma última coisa: eu nunca prometo que o sintoma some de um dia para o outro. Mas eu vejo, com muita frequência, a pessoa recuperar autonomia em semanas: ela volta a sair, volta a comer com mais tranquilidade, volta a viajar. E quando a autonomia volta, o enjoo perde o palco.
📝 Um roteiro rápido para levar ao médico (se você for investigar)
Se você decidir investigar, leve informação organizada. Isso ajuda muito a consulta e evita que você saia com a sensação de “não me ouviram”.
- Quando começou: data aproximada, se foi após estresse, virose, mudança de remédio.
- Frequência: quantas vezes por semana, em quais horários.
- Associação: com comida, com jejum, com ansiedade, com ciclos hormonais.
- Sinais de alerta: vômitos, sangue, febre, perda de peso, dor forte.
- O que já tentou: chás, antiácidos, mudanças alimentares, terapia, etc.
Mesmo quando a causa principal é ansiedade, esse tipo de organização reduz medo e te dá mais clareza do que está acontecendo.
📚 Referências e leituras confiáveis
Referências (para aprofundar, com linguagem acessível e/ou base científica):
- Organização Mundial da Saúde (OMS): “Anxiety disorders” (ficha técnica)
- American Psychological Association (APA): “Stress effects on the body”
- American Psychiatric Association: “What are Anxiety Disorders?”
- Mayo Clinic: “Anxiety disorders — Symptoms and causes”
- Cleveland Clinic: “Stress Nausea: Why It Happens and How To Deal”
- Cleveland Clinic: “Nausea — Causes & Treatment”
- NIDDK (NIH): Gut Feelings — Executive Summary (brain–gut axis)
- Mayer EA (2011): “Gut feelings: the emerging biology of gut–brain communication” (PMC)
- Breit S et al. (2018): “Vagus Nerve as Modulator of the Brain–Gut Axis in Psychiatric and Inflammatory Disorders” (PMC)
- Jiang M et al. (2024): “Mechanisms of microbiota-gut-brain axis communication in anxiety disorders” (PMC)

