Durante muitos anos, eu escutei a mesma frase, dita de jeitos diferentes: “Eu não queria apostar… eu só queria parar de sentir isso.” Quem olha de fora costuma enxergar o vício em jogo como falta de caráter, irresponsabilidade, “fraqueza”. Mas quem senta na minha frente, no consultório, quase sempre está travando uma batalha bem mais complexa: uma mistura de impulso, alívio imediato, vergonha, tentativas desesperadas de consertar o prejuízo e um medo profundo de ser descoberto. 
E é aqui que muita gente se perde: tenta vencer um problema que isola… usando mais isolamento como estratégia. O vício se alimenta do segredo. E eu aprendi, na prática, que existe um ponto em que o consultório, sozinho, não dá conta do que o vício faz: ele isola. E isolamento é combustível. Por isso eu valorizo tanto o trabalho em Grupo de Apoio — seja em grupos terapêuticos conduzidos por profissionais, seja em grupos de apoio. 
Se você chegou até aqui, eu quero te dizer algo bem direto: você não precisa resolver tudo sozinho(a). E você também não precisa “estar perfeito(a)” para começar. Tem gente que chega no grupo ainda apostando, ainda mentindo, ainda em negação. E, paradoxalmente, esse pode ser um começo valioso — porque a mudança raramente acontece na base da humilhação; ela acontece quando a pessoa se sente segura o suficiente para olhar para o próprio comportamento sem ser esmagada por ele.
Grupo de apoio para viciados em jogos de azar
No atendimento individual, eu aprendi cedo que raramente o problema é “o jogo” em si. O jogo é o mecanismo — o que vem antes, por baixo e por trás, geralmente é uma dor antiga ou uma tensão atual que a pessoa não consegue regular. Em muitos casos, o jogo aparece como uma anestesia: a mente acelera, o corpo liga, a preocupação some por alguns minutos, e o mundo fica pequeno o suficiente para caber numa tela. O cérebro registra isso como “funcionou”. E quando algo “funciona” para aliviar, mesmo que destrua por fora, vira uma armadilha poderosa. 
Quando falamos de jogos de azar e apostas (bets, cassino, roleta, slots, crash), eu costumo ver um padrão que se repete com uma força assustadora: o “recuperar o prejuízo”. É impressionante como a mente cria a ilusão matemática de que “agora vai”, como se a próxima aposta tivesse a missão de apagar toda a história. E é aí que o vício fica mais perigoso: porque não é só sobre ganhar dinheiro — é sobre reparar a vergonha, recuperar a autoestima, provar para si mesmo que “eu consigo”. O problema é que o jogo não devolve dignidade; ele cobra com juros. 
Como eu explico o papel do grupo (sem romantizar)
Um bom grupo de apoio não é “milagre”, nem palestra motivacional. Ele é estrutura. E estrutura, para quem vive no automático do impulso, é uma forma concreta de liberdade.
- Você sai do segredo: quando alguém diz “eu também” — sem choque, sem sermão — algo destrava por dentro. Porque a vergonha vive no silêncio. E o grupo, quando bem conduzido, é um antídoto.

- Você ganha ritmo: semana após semana, volta, conta como foi, aprende com o outro, se compromete de novo. Isso cria estrutura onde antes havia caos.
- Você aprende pelo espelho: ouvir a história do outro te devolve percepção: “eu não sou um monstro; eu estou num ciclo”.
O que esperar de uma reunião (na vida real)
Eu gosto de preparar a pessoa para o que é mais comum acontecer no começo:
- Medo de ser julgado(a): quase todo mundo chega pensando “se souberem, vão me desprezar”.
- Vontade de ir embora: o vício odeia luz. O impulso é voltar para o conhecido.
- Alívio inesperado: ouvir histórias parecidas costuma reduzir a sensação de “eu sou o único”.
- Resistência em falar: e tudo bem. Em muitos grupos, você pode só ouvir no início.
Se eu pudesse te dar um “norte” simples: vá como você está. Não espere virar outra pessoa para procurar apoio. O apoio é parte do caminho para virar outra pessoa.
Grupo de apoio vicio jogos
Uma das partes mais delicadas do meu trabalho é ajudar a pessoa a sair da lógica do “ou eu paro perfeito ou eu sou um fracasso”. Porque o vício adora extremos: “Já perdi, então tanto faz”; “Já menti, então não tem mais volta”; “Já fiz de novo, então sou lixo”. No consultório, eu devolvo uma verdade que costuma ser libertadora: recaída não é identidade. Recaída é um dado clínico. Ela mostra gatilhos, buracos na estratégia, emoções que ficaram sem saída. Quando a pessoa entende isso, a culpa para de ser um chicote e vira um sinal: “Aqui eu preciso de suporte.” 
E é por isso que o grupo funciona tão bem quando vira rotina: porque ele mantém você em contato com a realidade, não com a narrativa do vício. Minha experiência em grupos me ensinou que existe uma cura que não é “mística”, mas é profundamente humana: pertencimento.
Por que pertencimento é intervenção clínica (sim, clínica)
Para quem vive com vício, é comum ouvir a própria mente dizendo: “Ninguém entenderia”; “Eu estraguei minha família”; “Eu não presto”. O grupo coloca essa história em contraste com outra realidade: pessoas diferentes, histórias diferentes, e um ponto comum — a vontade de retomar a vida.
Quando isso acontece, eu vejo a pessoa parar de “negociar” com o impulso e começar a construir uma identidade nova: alguém em recuperação. Não alguém “curado(a) para sempre”, mas alguém que se compromete com passos reais.
O que um bom grupo reforça toda semana
- Honestidade sem humilhação (responsabilidade sem auto-ódio).
- Planejamento possível (não fantasioso, não punitivo).
- Prevenção de recaída como prática, não como promessa.
- Rede: ter para quem mandar mensagem antes do “só mais uma”.
Se eu tivesse que resumir o que eu vi funcionar, eu diria assim: pessoas saem do vício quando elas juntam clareza, barreiras práticas, suporte humano e um plano possível. Não é sobre virar outra pessoa da noite para o dia. É sobre retomar pequenas escolhas que o jogo sequestrou: dormir melhor, voltar a falar a verdade, encarar uma conta de cada vez, aguentar a ansiedade sem correr para a aposta, pedir ajuda antes de cair.
Grupo de apoio a viciados em jogo
Eu sempre reforço uma coisa: compreender é importante, mas construir proteção é essencial. O cérebro que aprendeu “alívio imediato” vai tentar te levar de volta para o caminho mais rápido — principalmente quando você está cansado(a), estressado(a), com medo, com vergonha ou com sensação de “já estraguei tudo”.
Por isso, uma parte do atendimento individual é muito prática e muito humana. A gente trabalha com identificação de gatilhos (horários, solidão, álcool, brigas, estresse, tédio, dinheiro disponível, notificações), com estratégias de regulação emocional (respiração, mindfulness aplicado ao impulso, tolerância ao desconforto), e com ferramentas cognitivas para desmontar crenenças típicas do jogo (ilusão de controle, “quase ganho”, superstição, “eu mereço uma sorte hoje”).
Meu checklist de proteção (sem drama, sem moralismo)
Em muitos casos, eu incentivo medidas de segurança concretas: bloqueios de aplicativos e sites, limitar acesso a cartões, combinar com alguém de confiança um “plano de proteção”, e criar barreiras para reduzir o ato automático. Isso não é punição. É cuidado. 
- Barreiras digitais: bloqueadores, senhas com alguém de confiança, remover apps, silenciar gatilhos.
- Barreiras financeiras: reduzir limites, separar dinheiro do mês, acordos de transparência gradual.
- Barreiras sociais: ter “pessoas-ponte” (alguém para avisar quando o impulso vier).
- Barreiras emocionais: estratégias rápidas para atravessar o pico do impulso sem agir.
Recaída: como eu trabalho isso sem te destruir
Quando acontece recaída, eu não trato como sentença. Eu volto para a pergunta clínica: o que veio antes? Qual foi o gatilho? Qual foi a emoção? Qual foi o pensamento automático? Qual barreira falhou? Onde você ficou sozinho(a) demais? Onde você se cobrou “perfeição” e caiu no tudo-ou-nada?
Essa mudança de postura é decisiva: a pessoa para de dizer “eu sou lixo” e começa a dizer “eu preciso de suporte aqui”.
Reconstrução de confiança (com família, parceiro(a), amigos)
Um tema recorrente nos grupos é a reconstrução de confiança. O vício em jogo frequentemente gera dívidas, promessas quebradas, brigas, afastamento. E eu costumo ser bem direto: confiança volta com tempo e consistência, não com discurso bonito.
- Passos pequenos: rotina simples, acordos claros, prestação de contas possível.
- Transparência gradual: sem exposição humilhante, mas com verdade.
- Responsabilidade sem auto-ódio: assumir o que fez, sem virar refém do pior capítulo.
A pessoa precisa assumir o que fez — mas também precisa acreditar que pode ser mais do que o pior capítulo da sua história.
Quando eu recomendo combinar grupo + terapia + psiquiatria
Outra coisa que eu nunca subestimo é o que está junto do vício. Ansiedade, depressão, TDAH, uso de álcool, traumas, solidão, crises familiares — são camadas que, se ignoradas, mantêm o ciclo. E, quando a depressão também entra nessa história (desânimo, isolamento, culpa, sensação de “não tem saída”), um espaço de rede como o Grupo de Apoio para Depressão pode ser um apoio importante junto do tratamento.
Em alguns casos, é necessário acompanhamento psiquiátrico, especialmente quando há sofrimento intenso, risco ou comorbidades importantes. Isso não é “fraqueza”; é tratamento adequado para um problema real.
Grupo de apoio para viciados em jogos online
O “online” muda o jogo por um motivo bem simples: acesso + velocidade + gatilho constante. Apostas e jogos “cabem” no bolso, aparecem em notificação, oferecem bônus, criam urgência (“última chance”), e empurram o cérebro para o modo automático. E quando você está vulnerável, o automático ganha.
Eu vejo muita gente tentando “ganhar na força de vontade”. Mas força de vontade, sem barreira, vira um teste diário — e teste diário cansa. O que funciona melhor é estratégia: reduzir oportunidade, diminuir estímulo e aumentar suporte.
Gatilhos digitais que eu mais escuto (e como eu trabalho)
- Notificações e promos: cortar estímulo é tratamento, não frescura.
- Solidão + tela: a combinação mais comum para recaída silenciosa.
- “Só 10 minutos”: o vício sempre promete pouco para cobrar muito.
- Alívio do estresse: o jogo vira “anestesia” — e isso precisa de alternativa real.
Alternativas ao ato (porque “só parar” não preenche o buraco)
Quando eu digo que “o jogo é o mecanismo”, eu estou dizendo que ele ocupa uma função: aliviar, anestesiar, regular emoção, dar sensação de controle. Então, sim: é necessário construir substitutos.
- Regulação rápida: respiração, caminhada curta, banho, música, grounding.
- Contato humano: mandar mensagem antes do pico (não depois).
- Organização do ambiente: tirar o fácil de vista, deixar o saudável acessível.
- Rotina mínima: sono, alimentação e horários — porque impulsividade piora no caos.
E existe um momento que, para mim, é sempre emocionante. É quando alguém diz: “Hoje eu senti vontade… e não fui.” Às vezes parece pouco para quem nunca viveu isso. Mas, para quem estava preso no automático, isso é enorme. É liberdade nascendo em forma de um “não” silencioso. 
Se você está lendo isso e se reconhecendo
Se você está lendo isso e se reconhecendo, eu quero deixar uma mensagem muito concreta: você não precisa resolver tudo sozinho(a). O vício em jogo é tratável. Há caminhos. Há grupos. Há técnicas. Há gente que entende. E há vida depois do ciclo. Um passo de cada vez — mas um passo real. 
Importante: este conteúdo é informativo e não substitui avaliação profissional. Se em algum momento você estiver em risco imediato (pensamentos de autoagressão), procure uma emergência ou ligue 188 (CVV). Você não precisa passar por isso sozinho(a).
Referências e leituras recomendadas (bibliografia)