Se você chegou até aqui procurando um Grupo de Apoio para depressão, eu já quero começar do jeito mais honesto possível: você não está “fraco”, você não está “quebrando” e você não precisa dar conta disso sozinho. Eu falo isso com a tranquilidade de quem já viveu, na prática, a experiência tanto com psicoterapia individual quanto com psicoterapia em grupo — e também de quem já viu como o acolhimento certo muda o curso de um transtorno depressivo.
Ao mesmo tempo, eu não romantizo. Depressão tem níveis, tem gravidade, tem risco, tem recaída e, sim, tem tratamento. E quando a gente encaixa o tratamento certo (no tempo certo, com o suporte certo), a vida volta a ter movimento — mesmo que comece com um passo minúsculo. 🌱
Importante: este conteúdo é informativo e não substitui avaliação profissional. Se você estiver em risco imediato ou com pensamentos de suicídio com planejamento, procure um serviço de urgência da sua cidade (ex.: UPA/Pronto Socorro) ou acione ajuda imediatamente.
O que é (de verdade) um grupo de apoio para depressão?
Um grupo de apoio é um espaço em que pessoas que estão atravessando algo parecido se reúnem para trocar experiências, reduzir isolamento, aprender estratégias e se fortalecer. Em muitos casos, existe mediação profissional (psicóloga/o), e em outros casos é um grupo de pares (pessoas com vivência em comum, seguindo regras claras de respeito e segurança).
Eu gosto de explicar de um jeito simples: a depressão costuma convencer a pessoa de que ela está sozinha, “estragada”, sem saída. O grupo faz o caminho inverso: ele devolve pertencimento e cria rede de apoio. E isso não é “fofo” — isso é intervenção concreta contra o isolamento, que é um combustível clássico da depressão.
Na prática, eu já vi muita gente chegar “sem ânimo” e, aos poucos, conseguir se apoiar no grupo para dar o primeiro passo. Às vezes o primeiro passo não é “felicidade”. É ir. É aparecer. É não sumir. Isso já é enorme. 💛
Grupo de Apoio para Depressivos
Sim, a expressão “grupo de apoio para depressivos” aparece muito na busca — e eu entendo o que a pessoa quer dizer: “eu estou deprimido agora, eu preciso de um lugar para respirar sem ser julgado”.
Quando a pessoa está deprimida, o que ela mais precisa é de um ambiente em que:
- não exista julgamento (nem “força”, nem “é falta de Deus”, nem “isso é frescura”);
- o sofrimento seja levado a sério;
- haja limite e segurança (para não virar gatilho coletivo);
- exista continuidade (porque depressão não melhora em “uma conversa”).
Eu já precisei fazer muita psicoeducação com família e com o próprio paciente para desfazer esses mitos: depressão não é “mente desocupada”, não é “falta de ter o que fazer” e não é “falta de religião”. Eu já vi, inclusive, pessoas muito religiosas entrarem em depressão — então não dá para reduzir uma doença a moral ou fé. Depressão é multifatorial: tem biologia, ambiente, história, estresse, perdas, traumas, repetição de padrões… e cada pessoa tem uma combinação única.
Antes de entrar em qualquer grupo: eu sempre avalio 3 coisas
Na minha prática, num primeiro momento, eu preciso identificar: qual é a intensidade (leve, moderada, grave), se a pessoa está com ideação suicida ou pensamentos de morte, se já fez tratamento, se o quadro é recorrente ou não.
Isso importa porque depressão leve, moderada e grave não são “a mesma coisa em volume diferente”. Elas podem mudar totalmente o nível de risco, o tipo de intervenção e a velocidade com que a pessoa consegue se engajar.
- Leve: a pessoa ainda consegue funcionar em partes (trabalhar/estudar com sofrimento), mas perde prazer, energia e motivação.
- Moderada: já há prejuízo maior de rotina, sono, apetite, concentração e presença de desesperança mais intensa.
- Grave: pode haver incapacidade de manter rotina básica, risco aumentado, e em alguns casos sintomas mais complexos (por exemplo, alterações importantes de sono e alimentação; e, em quadros específicos, até sintomas psicóticos). Aqui segurança é prioridade.
Eu também olho muito para o básico do básico: sono, comida, energia, isolamento, e o quanto a pessoa está conseguindo manter o mínimo do dia. Porque, muitas vezes, é isso que vai dizer se o grupo será um suporte suficiente agora ou se a pessoa precisa primeiro de estabilização individual/psiquiátrica.
Grupo de apoio substitui psicoterapia individual?
Na maioria dos casos, não. Eu costumo dizer: o grupo é um acelerador de pertencimento e um protetor contra isolamento, mas a psicoterapia individual é o lugar onde a gente aprofunda a história, a formulação do caso e as mudanças finas de pensamento e comportamento.
E aqui entra um ponto bem real da minha experiência: quando o paciente está de moderado para grave, eu percebia que, sem medicamento (quando havia indicação médica), ele muitas vezes não conseguia absorver a parte cognitiva da terapia. A cognição fica mais afetada: atenção, memória, capacidade de planejar, de testar estratégias.
Como a psicoterapia é fala, escuta, mudança de comportamento, trabalhar cognição e identificar emoções… se a pessoa está muito rebaixada, sem nenhum suporte biológico quando indicado, o trabalho pode ficar muito mais demorado. Não porque ela “não quer”, mas porque a depressão sequestra as funções que a terapia precisa.
Por isso, muitas vezes o cuidado é em equipe multidisciplinar. E eu sei que existe resistência: já tive pacientes que vieram para psicoterapia e “não queriam experimentar” a medicação. Então, em vez de brigar, eu trabalho em passos: a gente conversa, entende o medo, alinha expectativa, envolve a família quando necessário e mostra que, às vezes, o remédio não é “muleta” — é ponte.
O que eu faço na TCC (e como isso conversa com um grupo)
Na terapia cognitivo-comportamental, eu sigo um caminho que faz sentido:
- Vínculo: ninguém muda em um lugar onde não se sente seguro.
- Psicoeducação: eu ensino o modelo, explico sintomas, explico como o ciclo da depressão se mantém.
- Lista de problemas: a gente monta uma lista para entender “coisas que o paciente fazia antes e deixou de fazer”.
- Estratégias: ativação comportamental, reestruturação cognitiva, treino de habilidades, rotina, sono, enfrentamento de evitação.
Quando eu levo isso para um grupo (ou quando um grupo é bem conduzido), o ganho é que as pessoas aprendem e treinam juntas. E tem uma coisa muito poderosa: quando alguém do grupo dá um passo pequeno, isso vira um espelho possível para o outro. O grupo vira um lembrete vivo de que “movimento” existe — mesmo que lento.
Ativação comportamental: por que eu começo pequeno
Eu uso muito ativação comportamental porque ela é extremamente útil em depressão. E eu explico de um jeito que as pessoas entendem: a vontade, a motivação é a última que vai vir na depressão.
Então eu não fico esperando a motivação aparecer para a pessoa agir. Eu ajudo a pessoa a começar por ações mínimas. Às vezes eu digo exatamente assim: vamos fazer “coisas pequenininhas que lá no passado você amava fazer, mas hoje você não consegue fazer”.
Exemplos práticos (bem pé no chão):
- tomar banho e trocar de roupa antes do meio-dia;
- abrir a janela por 5 minutos;
- andar até a esquina ouvindo uma música;
- voltar a fazer 10 minutos de algo que já foi prazeroso;
- enviar uma mensagem para alguém seguro (uma pessoa só).
Aos poucos, mudando comportamento, a cognição e a emoção começam a fazer movimento. Não é mágico, é repetição. E é por isso que o grupo ajuda: ele sustenta a repetição quando a pessoa quer desistir.
Quando o grupo é excelente (e quando ele não é a melhor opção agora)
Eu acho o grupo excelente quando ele oferece:
- acolhimento sem julgamento;
- regras claras de respeito;
- sigilo (o que é dito ali não vira fofoca fora);
- mediação responsável (profissional ou liderança treinada);
- foco em estratégia e suporte, não em “disputar sofrimento”.
Agora, eu sou muito transparente: se a pessoa está com planejamento suicida, impulso forte para tentar suicídio, ou risco elevado, pode ser necessário um cuidado mais intensivo, às vezes até internação para estabilizar. Nesses casos, o grupo pode ser um complemento depois, mas não deve ser a única estrutura.
Se existe “só ideação” (pensamentos de morte sem plano), eu já começo a organizar rede: quem mora junto, qual familiar fica responsável por apoiar, quem ajuda com rotina e, quando indicado, até com o controle do medicamento. Nessa parte, o psicólogo trabalha muito: orienta, ajuda a família a entender e constrói um plano de segurança.
O papel da família (e a psicoeducação que eu sempre faço)
Eu costumo dizer que o ser humano não é um ser sozinho. A gente não vive em caverna. Então, quando dá, eu envolvo família — não para “vigiar”, mas para apoiar.
Eu explico para a família, com todas as letras: depressão não é frescura. Não é “falta de Deus no coração”. Não é “preguiça”. É uma doença e pode envolver alterações químicas e fatores ambientais que foram se acumulando ao longo do tempo: estresse, trauma guardado, perdas, sobrecarga, repetição de experiências difíceis.
Quando a família entende isso, ela muda o tipo de fala em casa. Sai o “reage” e entra o “como eu te ajudo a fazer o mínimo hoje?”. E isso muda tudo.
Como é a psicoterapia em grupo (e por que ela pode ser mais rica do que você imagina)
Eu já participei de grupos e também já criei grupos no SUS voltados para transtorno depressivo. O trabalho no grupo pode ser parecido com o individual em técnicas, mas no grupo ele fica mais rico porque o paciente não se sente sozinho no sofrimento.
Ele olha para o lado e percebe: “tem outras pessoas passando por isso”. E isso não diminui a dor — mas diminui o isolamento, a vergonha e o silêncio.
Às vezes familiares participam em momentos específicos, e isso também é transformador: eles veem que não é só “o meu familiar” que está passando por aquilo, e que existe uma lógica clínica por trás. O grupo vira um espaço de acolhimento e treino: a pessoa compartilha o sofrimento, aprende ferramenta, testa um passo e volta para contar.
E eu reforço sempre: não existe uma técnica única. Existem muitas ferramentas. O que funciona para um, pode não funcionar para outro. Uns melhoram mais rápido, outros mais lento. O importante é consistência e cuidado.
Regras de ouro: sigilo, limites e segurança
- Sigilo: o que é dito no grupo fica no grupo.
- Sem julgamento: ninguém é “fraco” por estar deprimido.
- Sem competição de dor: o objetivo é apoio e estratégia.
- Limite para gatilhos: detalhes gráficos de autoagressão/suicídio não são necessários (e podem machucar o grupo).
- Encaminhamento quando preciso: grupo bom sabe dizer “aqui não basta, vamos te conectar com cuidado intensivo”.
O que esperar do primeiro encontro (para não se frustrar)
Eu vejo muita gente desistir rápido porque vai com uma fantasia: “vou numa reunião e volto curado”. E eu explico com carinho: o trabalho não acontece no nosso tempo. Cada paciente tem seu ritmo.
Tem gente que em 3 ou 4 meses já sente mudanças claras. Outros demoram mais, dependendo da gravidade, do contexto e do suporte. E faz sentido: você está há quanto tempo sofrendo? Há quanto tempo com esses sintomas? Não é um resfriado de 7 dias.
No primeiro encontro, é comum:
- sentir vergonha (e isso passa);
- ficar mais quieto (e tudo bem);
- pensar “não sou tão grave quanto os outros” ou “sou grave demais” (comparação é armadilha);
- sentir alívio por não ser julgado.
Como encontrar um grupo de apoio para depressão (online e presencial)
Eu gosto de orientar por caminhos práticos:
- SUS: procure a UBS do seu bairro e pergunte sobre rede de saúde mental, CAPS e grupos disponíveis.
- CAPS: em muitas cidades, o CAPS tem acolhimento e atividades em grupo, além de Projeto Terapêutico Singular com a pessoa e a família.
- Online: existem iniciativas sérias com inscrição, regras e mediação. Prefira grupos com orientação clara de sigilo, limites e conduta.
- Clínicas-escola e universidades: muitos serviços oferecem grupos com valor social.
Checklist rápido para escolher bem:
- Quem facilita o grupo? Existe formação/treino?
- Tem regras escritas (sigilo, respeito, limites)?
- O grupo promete “cura rápida” ou vende milagre? (🚩)
- Existe orientação sobre o que fazer em crise?
- Você se sente minimamente seguro ali?
Perguntas frequentes (FAQ)
📌 Grupo de apoio é para qualquer tipo de depressão?
Ele pode ajudar em muitos casos, mas eu sempre reforço: quanto mais grave o quadro, mais importante é combinar grupo com avaliação profissional, e às vezes com psiquiatria e outros suportes.
📌 Posso participar mesmo sem “vontade”?
Sim. Na depressão, “vontade” costuma ser o último sinal a reaparecer. Eu trabalho com a ideia do pequeno movimento: você não precisa estar motivado para começar; você começa para a motivação ter chance de voltar.
📌 Terapia em grupo funciona mesmo?
Funciona muito para várias pessoas, especialmente quando existe boa condução, segurança e constância. E, além disso, o efeito de pertencimento e redução do isolamento é uma peça que muita gente não consegue construir sozinho.
📌 E se eu piorar depois do encontro?
Isso pode acontecer, principalmente quando você encosta em emoções que estavam anestesiadas. A diferença é: um grupo bem conduzido te ajuda a organizar isso, não te abandona no caos. Se piorar de forma importante, procure atendimento profissional e suporte imediato.
Referências científicas e fontes confiáveis (para aprofundar)