Introdução à como ajudar a alguém com crise de ansiedade
Conteúdo educativo; não substitui avaliação clínica. Se houver risco imediato, dor no peito intensa, desmaio, confusão, sintomas neurológicos ou perigo de autoagressão, procure atendimento de urgência.
Quando alguém entra em crise de ansiedade, a sua presença pode ser o “freio” que o corpo dela ainda não consegue acionar sozinho. Eu me lembro da primeira vez que segurei a mão de uma paciente no corredor de um prédio comercial, porque ela não conseguia entrar no elevador. Ela dizia “eu vou morrer” — e, naquele momento, eu entendi na prática que o que acalma não é argumento perfeito, e sim presença + ritmo + simplicidade.
O objetivo aqui é te dar um roteiro claro: o que é a crise, o que fazer na hora, o que dizer, como ajudar por mensagem e quando buscar hospital/pronto-socorro, com orientações que cabem na vida real.
🧠 Entenda: Crise de ansiedade o que é e como reconhecer
Uma crise de ansiedade é um pico intenso de medo e desconforto, acompanhado de sintomas físicos (como taquicardia, tremor, sudorese, falta de ar, tontura, náusea) e sintomas mentais (sensação de perder o controle, de enlouquecer ou de morrer). Mesmo quando não há perigo real, o corpo se comporta como se estivesse em ameaça.
Uma parte importante para você lembrar: não é “teatro”. É um sistema de alarme que disparou. E quando o alarme dispara, o cérebro reduz o acesso ao raciocínio calmo. Na avaliação neuropsicológica, eu observo como a ansiedade sequestra a atenção e estreita o campo mental. A pessoa até pode saber o que ajuda, mas não consegue “pegar” essa estratégia no meio da onda.
Sinais comuns de que pode ser uma crise (não é lista de diagnóstico): respiração curta, sensação de sufoco, aperto no peito, agitação, choro, fala acelerada, necessidade de fugir do local, medo intenso “sem motivo”, formigamento, mãos frias, sensação de desrealização (“parece que não estou aqui”).
O que diferencia crise de ansiedade de emergência? Muitas sensações se parecem. Por isso, se você não tem certeza ou se há sinais de alerta, priorize avaliação médica. Melhor pecar por excesso de cuidado do que por omissão.
🆘 Na Hora H: O que fazer quando alguém tem crise de ansiedade
Se você só guardar uma ideia, guarde esta: seja o “ritmo” que a pessoa empresta. Tom de voz baixo, frases curtas, corpo estável. Eu também aprendi que a frase ‘calma’ costuma soar como ordem — e ordens aumentam o pânico. Em vez disso, use presença e instruções simples.
Roteiro dos primeiros 2 minutos (bem prático):
- 1) Segurança: pergunte “Você está em um lugar seguro agora?” e afaste riscos (multidão em volta, escadas, trânsito).
- 2) Permissão e escolha: “Posso ficar aqui com você?” / “Você prefere sentar ou ficar em pé?”
- 3) Respiração guiada curta: “Olha pra mim. Inspira devagar… solta mais devagar ainda. Vamos repetir 5 vezes.”
- 4) Aterramento: “Encosta os pés no chão. Me diz 3 coisas que você está vendo agora.”
- 5) Validação: “Eu acredito em você. Isso é muito desconfortável. E eu vou ficar aqui até passar.”
Se a pessoa topar, reduza estímulos: leve para um lugar mais calmo, peça para outras pessoas não cercarem, e mantenha o foco em ações pequenas. O corpo precisa de sinais de segurança para o alarme começar a baixar.
🫶 Técnicas Práticas: Como acalmar alguém com crise de ansiedade
Você não precisa “curar” a crise. Você precisa ajudar o corpo a entender que não há ameaça imediata. Abaixo estão técnicas simples, com orientação de uso:
- Respiração com saída mais longa: convide a pessoa a soltar o ar lentamente, como se apagasse uma vela. O foco é alongar a expiração, porque isso tende a sinalizar relaxamento corporal.
- Aterramento 5-4-3-2-1: 5 coisas que vê, 4 que sente ao toque, 3 que ouve, 2 que cheira, 1 que sente no gosto. Funciona porque traz o cérebro para o presente.
- Nomeie a onda: “Isso parece uma onda: sobe, fica forte e depois desce.” Ajuda a reduzir a sensação de infinito.
- Microtarefas: “Bebe um gole de água.” “Conta comigo de 10 até 0.” “Encosta as costas na parede.” Pequenas ações devolvem controle.
Evite discutir, fazer sermão, “dar um choque de realidade”, insistir em perguntas longas ou exigir que a pessoa explique “por quê”. Numa crise, o cérebro não está no modo explicação; está no modo alarme.
Se a pessoa estiver hiperventilando (respirando muito rápido), o corpo pode dar formigamento e tontura. Guie para um ritmo mais lento. Se ela não conseguir, ajude apenas com sua voz: “Só tenta soltar o ar um pouquinho mais devagar do que entrou.”
💬 Comunicação que Acalma: O que dizer para quem tem ansiedade
A palavra certa não é a “mais bonita”. É a mais simples e mais segura. O que funciona melhor é validar sem alimentar a catástrofe: ‘Eu acredito em você. Isso é muito desconfortável. E eu vou ficar aqui até passar.’
Frases que ajudam (presencialmente):
- “Eu estou aqui com você.”
- “Vamos fazer juntos, um minuto de cada vez.”
- “Você não precisa explicar nada agora.”
- “Seu corpo está em alarme; a onda vai baixar.”
- “O que te ajuda mais: silêncio, água, sentar, ou respirar comigo?”
Frases que costumam piorar (mesmo com boa intenção):
- “Para com isso.”
- “Isso é exagero.”
- “Você tem tudo, não tem motivo.”
- “Se acalma!”
- “Pensa positivo.”
Não é que a pessoa “não queira” se acalmar. Na crise, o corpo está interpretando sensações como perigo. Seu papel é oferecer segurança, não cobrança.
📲 Acolhimento Digital: Como acalmar alguém com ansiedade por mensagem
Mensagem precisa ser curta, presente e orientada. Textão pode virar ruído. E perguntas demais podem aumentar a pressão. A ideia é: presença + um próximo passo.
Modelo pronto (copiar e colar):
- “Tô aqui com você. Respira comigo por 60 segundos: inspira… solta devagar.”
- “Você está em lugar seguro agora? Sim ou não.”
- “Se puder, coloca os pés no chão e me diz 3 coisas que você vê.”
- “Não precisa resolver nada agora. Só atravessar a onda.”
- “Quer áudio, ligação, ou só que eu fique aqui no chat?”
O que evitar por mensagem: discutir, exigir explicação (“mas por que isso?”), ironizar, responder com silêncio prolongado sem aviso, ou mandar links e conselhos demais no pico da crise.
Uma paciente minha tinha crises recorrentes ao receber mensagens curtas do parceiro. Um “ok” virava abandono. O que ajudou foi combinar um código simples: quando ela escrevia “tô em onda”, ele respondia com três linhas fixas: presença (“tô aqui”), passo prático (respirar/aterrar) e pergunta de escolha (áudio/ligação/chat). Consistência acalma mais do que criatividade.
🤝 Rede de Apoio: Como ajudar alguém com ansiedade no dia a dia
A ajuda mais poderosa costuma acontecer fora do momento da crise. Porque é aí que vocês criam terreno para a próxima onda ser menor.
- Combine um plano antes: “Se acontecer, você prefere que eu faça o quê?” (silêncio, água, caminhar, respirar junto, ligar para alguém).
- Mapeie gatilhos com respeito: sono ruim, excesso de cafeína, álcool, cobrança, conflitos, ambientes cheios, notícias, redes sociais.
- Reforce pequenas vitórias: “Você atravessou. Seu corpo gritou, mas você ficou.”
- Não vire terapeuta da pessoa: seja presença e incentivo para cuidado profissional quando necessário.
Outra coisa que a experiência me ensinou: depois da crise, vem a ressaca. A pessoa pode ficar esgotada, envergonhada, irritada, com medo da próxima. Ajuda muito oferecer um pós-crise humano: comida leve, água, banho, descanso e uma conversa curta (não interrogatório). E, se fizer sentido, anotar: “o que piorou” e “o que ajudou” — só 2 ou 3 itens.
🧠 Avaliação Neuropsicológica: O que ela mostra na ansiedade
Quando falamos de ansiedade, muita gente pensa apenas em emoção. Mas a ansiedade também mexe com processos cognitivos: atenção, velocidade de processamento, memória de trabalho e flexibilidade mental. Não porque a pessoa “fica menos capaz”, e sim porque o cérebro prioriza ameaça.
Na avaliação neuropsicológica, eu observo como a ansiedade sequestra a atenção e estreita o campo mental. Em termos práticos, isso pode aparecer como:
- Dificuldade de desligar de pensamentos (ruminação).
- Hipervigilância a sinais corporais (qualquer batida do coração vira perigo).
- Queda de desempenho sob pressão (em prova, reunião, apresentação).
- Evitação que parece “preguiça”, mas é medo condicionado.
A avaliação pode incluir entrevistas, escalas e testes que exploram atenção e funções executivas (como inibição e alternância). O objetivo não é “dar rótulo”, e sim construir um mapa: onde a ansiedade pega mais forte e quais estratégias têm mais chance de funcionar para aquela pessoa.
👥 Psicoterapia Individual e Em Grupo: O que funciona e o que não funciona
Na psicoterapia individual, o foco costuma ser: entender gatilhos, treinar regulação emocional, trabalhar crenças catastróficas e, quando é o caso, fazer exposições graduais (com segurança). Em muitos quadros de pânico, aprender a interpretar sensações corporais com menos medo é parte crucial do processo.
Em grupo, acontece algo especial: a vergonha perde força. Eu lembro de um rapaz de 19 anos, em psicoterapia em grupo, que disse: ‘quando alguém respira comigo, eu volto pro meu corpo’. Essa frase resume bem o efeito do pertencimento.
O que costuma funcionar bem:
- Psicoeducação (entender o ciclo da ansiedade).
- Treino de habilidades (respiração, aterramento, tolerância ao desconforto).
- Exposição gradual (aos poucos, com plano).
- Comunicação assertiva (pedir ajuda sem se humilhar; dizer “não” sem culpa).
O que costuma dar errado (ou precisa de muito cuidado):
- Empurrar a pessoa para “enfrentar” no pico da crise.
- Usar vergonha como motivação (“para de frescura”).
- Transformar o grupo em “tribunal de conselhos”.
- Focar só em “pensar positivo” e ignorar o corpo.
Se houver sofrimento intenso, comorbidades (depressão, uso de substâncias, trauma), ou risco, a psicoterapia deve caminhar junto de avaliação médica/psiquiátrica quando indicado.
🏥 Sinais de Alerta: Quando buscar ajuda médica (hospital/pronto socorro)
E, por fim, eu sempre digo: há crises que parecem crise de ansiedade, mas podem ser algo clínico — e a pessoa não deve ser julgada por buscar um hospital. Segurança vem primeiro.
Procure avaliação médica com urgência se houver:
- Dor no peito intensa ou diferente do habitual, especialmente com falta de ar importante.
- Desmaio, confusão mental, fraqueza em um lado do corpo, fala enrolada, convulsão.
- Saturação baixa (se houver oxímetro) ou dificuldade respiratória significativa.
- Uso recente de drogas/estimulantes, ou abstinência importante.
- Risco de autoagressão, pensamentos suicidas, comportamento fora de controle.
- Primeira crise muito intensa sem diagnóstico prévio, principalmente com fatores de risco clínicos.
❓ Pode ir pro hospital com crise de ansiedade?
Sim. Se você está em dúvida, se é a primeira vez, se os sintomas são muito fortes ou se há sinais de alerta, ir ao hospital pode ser a escolha mais segura. Mesmo quando o diagnóstico final é ansiedade, a avaliação ajuda a descartar condições clínicas e a orientar os próximos passos. Isso não substitui acompanhamento psicológico/psiquiátrico, mas pode ser necessário naquele momento.
❓ Pronto socorro ansiedade: quando ir?
Vá ao pronto-socorro quando a crise vier acompanhada de sinais físicos preocupantes (dor no peito intensa, desmaio, confusão, falta de ar importante), risco de autoagressão, uso de substâncias, ou quando você não consegue diferenciar ansiedade de outra emergência. Se a pessoa já tem diagnóstico e reconhece o padrão, mas a crise está “fora do normal”, também vale avaliação.
🌿 Depois da Crise: Como ajudar sem reforçar o medo
Depois que a onda baixa, o cérebro tenta “explicar” o que aconteceu — e aí nasce o medo do medo. Para quebrar esse ciclo:
- Normalize sem minimizar: “Foi difícil, mas passou.”
- Evite interrogatório: escolha um momento calmo para conversar.
- Registre aprendizados: “O que ajudou? O que piorou? O que faremos diferente?”
- Cuide do básico: sono, alimentação, hidratação, reduzir cafeína/álcool.
- Planeje microexposições: se a pessoa começar a evitar tudo, procure ajuda profissional para não expandir a “zona proibida”.
🛡️ Como Cuidar De Quem Cuida
Ajudar alguém em crise cansa. Você pode sentir impotência, medo e até raiva. Para não virar refém da ansiedade do outro:
- Combine limites e um plano (“se acontecer X, fazemos Y”).
- Divida a rede (familiares, amigos, profissionais).
- Não carregue segredo de risco (autoagressão não é “assunto só do casal”).
- Procure orientação profissional se você estiver se desgastando demais.
❓ Perguntas Frequentes sobre Crise de Ansiedade
❓ Como saber se é crise de ansiedade ou algo no coração?
Os sintomas podem se parecer (palpitação, aperto no peito, falta de ar). Se a dor no peito for intensa, diferente do habitual, vier com desmaio, confusão, fraqueza, ou se você estiver em dúvida, procure avaliação médica. Conteúdo educativo não substitui consulta e não é diagnóstico.
❓ O que fazer nos primeiros 2 minutos de uma crise de ansiedade?
Priorize segurança (afastar riscos e reduzir estímulos), peça permissão para ajudar e ofereça escolhas simples (sentar/ficar em pé). Guie uma respiração lenta com expiração mais longa e faça um aterramento rápido (3 coisas que a pessoa vê agora). Valide: “estou aqui com você”.
❓ O que não dizer para quem está em crise de ansiedade?
Evite frases que minimizam ou cobram controle, como “para com isso”, “isso é exagero” e “se acalma”. Também costuma piorar “pensar positivo” no pico da crise. Prefira frases curtas de presença e validação.
❓ Como acalmar alguém com crise de ansiedade por mensagem sem piorar?
Mantenha mensagens curtas, acolhedoras e orientadas: presença (“tô aqui”), um passo (“respira comigo por 60s”) e uma escolha (“quer áudio, ligação ou chat?”). Evite textões, discussões e perguntas demais no pico. A consistência ajuda mais do que conselhos.
❓ Pode ir pro hospital com crise de ansiedade?
Sim. Se é a primeira crise, se está muito intensa, se há sinais físicos preocupantes ou se você não consegue diferenciar de outra emergência, ir ao hospital é prudente. Mesmo quando for ansiedade, a avaliação pode descartar causas clínicas e orientar conduta.
❓ Pronto socorro ansiedade: quando ir?
Vá ao pronto-socorro se houver dor no peito intensa, desmaio, confusão, falta de ar importante, sintomas neurológicos, uso de substâncias, risco de autoagressão ou padrão “fora do normal”. Na dúvida, priorize segurança e avaliação.
❓ Quanto tempo dura uma crise de ansiedade?
Muitas crises atingem um pico e depois reduzem ao longo de minutos, podendo durar em torno de 15 a 30 minutos em vários casos. A percepção de tempo pode parecer maior durante o pico, porque o corpo está em modo alarme. Se durar muito ou vier com sinais de alerta, procure avaliação.
❓ Depois da crise, o que ajuda a evitar novas crises?
Ajuda cuidar do básico (sono, alimentação, reduzir estimulantes), registrar o que funcionou e planejar microexposições para evitar que o medo aumente a evitação. Psicoterapia (individual e/ou em grupo) costuma oferecer ferramentas para reduzir recorrência e sofrimento. Se houver piora importante, busque avaliação profissional.
📚 Referências e Leituras Confiáveis
- OMS — Anxiety disorders (ficha informativa)
- NICE — Diretriz CG113 (GAD e Transtorno do Pânico em adultos)
- Ministério da Saúde (BVS) — Transtorno do pânico
- Associação Médica Brasileira — Transtornos de ansiedade: diagnóstico e tratamento (PDF)
- CBT em transtornos de ansiedade — revisão/guia clínico (PMC)
- Meta-análise sobre viés atencional para ameaça na ansiedade (PubMed)
- OMS — mhGAP guideline (publicação)
- Ministério da Saúde — Informações públicas sobre transtornos de ansiedade