🧭 Introdução: quem pode diagnosticar TDAH
Eu escuto essa pergunta quase toda semana — e ela costuma vir carregada de alívio e medo ao mesmo tempo. Alívio porque, finalmente, alguém colocou em palavras uma dúvida antiga (“será que tem algo aqui?”). Medo porque
um rótulo pode abrir portas (tratamento, adaptações, autoconhecimento), mas também pode virar uma sentença injusta quando é dado de qualquer jeito.
Nos meus
cinco anos de SUS, vi de perto os dois extremos: gente que passou a vida inteira levando bronca por “preguiça” e, quando recebeu uma avaliação cuidadosa, entendeu que precisava de outra estratégia; e gente que chegou com um “diagnóstico pronto” de rede social, e só depois descobriu que o buraco era outro (sono ruim, ansiedade, depressão, uso de substâncias, estresse crônico… a lista é grande).
Eu trabalho com
psicoterapia individual, já conduzi
grupos terapêuticos (principalmente de habilidades e organização de rotina), e também faço
avaliação neuropsicológica. Isso me fez aprender uma coisa básica:
o diagnóstico é um processo, não um teste mágico. E, na prática, ele costuma ser melhor quando vira uma conversa entre profissionais (e não uma disputa de “quem manda”).
Ao longo deste texto, eu vou te mostrar quem geralmente fecha esse tipo de avaliação, como cada profissional contribui, o que costuma acontecer nas consultas e o que ajuda — de verdade — a chegar numa conclusão segura, sem pressa e sem caça às bruxas.
Se você quiser ver o passo a passo com mais detalhes, deixei um guia completo sobre
como é feito o diagnóstico de TDAH.
👩⚕️ Que médicos costumam fechar o diagnóstico (e o que muda entre eles)
Quando alguém pergunta “qual médico”, geralmente está buscando duas coisas:
1) quem tem formação para avaliar com critério e
2) quem pode formalizar o diagnóstico em documento médico, quando isso é necessário (por exemplo, para prescrição de medicação ou alguns tipos de laudos/atestados).
Na prática clínica, os médicos que mais costumam conduzir e fechar esse diagnóstico são:
- Psiquiatra (adulto ou infantil): costuma avaliar com profundidade sintomas, comorbidades e impacto funcional, além de ser quem frequentemente coordena o plano terapêutico quando há necessidade de medicação.
- Neurologista (ou neuropediatra, no caso de crianças): entra muito quando há necessidade de olhar o neurodesenvolvimento, descartar outras condições neurológicas e organizar a investigação de forma mais ampla.
- Pediatra (na infância) e médico de família (na atenção primária): muitas vezes são a “porta de entrada”, fazem a primeira triagem, acompanham a saúde geral e encaminham quando percebem que o quadro exige avaliação especializada.
Eu gosto de explicar assim:
o melhor profissional é o que sabe fazer a pergunta certa. Já vi gente peregrinar por consultórios e sair com respostas diferentes porque a avaliação ficou superficial — e também vi um bom pediatra da UBS organizar informações da escola e da família com uma precisão que muitos especialistas invejariam.
Exemplo fictício: o “Rafael”, 10 anos, chegou ao posto com queixa de “agitação”. A escola pedia “um laudo rápido”. Na conversa, apareceu um detalhe: ele dormia muito tarde, com telas no quarto. Quando a família conseguiu ajustar rotina de sono, parte do comportamento mudou bastante — e o restante, sim, precisava de avaliação especializada. Se alguém tivesse fechado conclusão no primeiro atendimento, a chance de errar era enorme.
🩺 Infância vs. vida adulta: como esse caminho costuma acontecer
Na
infância, é comum que o caminho comece no pediatra e siga para
neuropediatra ou
psiquiatra infantil quando os sinais persistem e causam prejuízo em mais de um contexto (casa, escola, atividades). Eu sempre reforço: na criança,
a escola é um “laboratório social”, então relatos de professores e histórico escolar ajudam muito.
Na
vida adulta, o caminho costuma passar por
psiquiatra e, muitas vezes, por uma avaliação psicológica/neuropsicológica complementar. Adultos chegam com estratégias de compensação (“eu dou meus pulos”), com vergonha, e às vezes com um histórico de sofrimento por críticas repetidas. Em consultório, eu já ouvi frases como: “Eu achava que era falta de caráter”. E isso dói.
O ponto central é que, em qualquer idade, a avaliação precisa considerar
tempo de evolução,
início dos sintomas (frequentemente desde a infância),
impacto real no funcionamento e
diagnósticos que podem parecer iguais por fora (ansiedade, transtornos do humor, dificuldades específicas de aprendizagem, alterações do sono, entre outros).
🧑🤝🧑 Psicólogo, neuropsicólogo e médico: por que equipe costuma ajudar
Quando a pergunta é “qual profissional”, eu respondo com um cuidado extra:
tem diferença entre avaliar, levantar hipótese e fechar diagnóstico médico. Em muitos casos, uma equipe bem alinhada deixa o processo mais seguro.
Na minha rotina, eu vejo esse quebra-cabeça assim:
- Psicólogo(a): faz entrevista clínica, aplica instrumentos psicológicos quando indicado, avalia funcionamento emocional/comportamental e produz documentos psicológicos dentro das normas da profissão. Na psicoterapia, ajuda a pessoa a entender padrões, construir habilidades e lidar com o impacto do transtorno no dia a dia.
- Neuropsicólogo(a) (psicólogo com formação específica): quando necessário, faz um mapeamento mais detalhado de atenção, memória, funções executivas e autorregulação, além de analisar como isso aparece na vida real.
- Médico(a) especialista (psiquiatra/neurologista/neuropediatra): integra as informações clínicas, avalia comorbidades médicas/psiquiátricas, define diagnóstico nosológico e, quando preciso, indica e acompanha medicação.
- Escola/família: sem esses dados, a gente corre o risco de avaliar “uma pessoa do consultório” e não “uma pessoa da vida”.
Nos grupos terapêuticos que conduzi no SUS, eu via um padrão: quando a pessoa entendia que
não era uma falha moral, mas um jeito de o cérebro regular atenção e impulsos, ela parava de gastar energia se punindo e começava a gastar energia organizando o próprio ambiente. Parece simples, mas muda tudo.
Exemplo fictício: a “Fernanda”, 32 anos, chegou dizendo que queria “um teste para confirmar”. Na entrevista, apareceu uma ansiedade intensa e um padrão de autocrítica brutal. Parte da desatenção era “mente acelerada” e hipervigilância. A avaliação ajudou a separar as camadas: havia dificuldades executivas, sim, mas o motor principal do sofrimento era ansiedade. Sem essa separação, o tratamento ficaria capenga.
🧪 Como é uma avaliação para TDAH: etapas que eu vejo funcionar na prática
Eu costumo dizer que um bom processo de avaliação parece menos um “interrogatório” e mais uma
investigação cuidadosa da história. E, por mais que a internet venda atalhos, na clínica o caminho costuma ter etapas.
🧾 Etapas comuns de uma avaliação bem feita
- Entrevista clínica (anamnese): sintomas atuais, quando começaram, em quais situações aparecem e o que piora/melhora.
- Histórico de desenvolvimento: gestação, marcos do desenvolvimento, rotina de sono, saúde geral, história escolar.
- Informações de outros contextos: relatos de familiares, parceiros, professores e, quando possível, documentos escolares.
- Escalas e questionários padronizados: ajudam a medir intensidade e impacto, mas não substituem a análise clínica.
- Avaliação de comorbidades: ansiedade, depressão, uso de substâncias, transtornos do sono, dificuldades de aprendizagem, entre outros.
- Observação do funcionamento: como a pessoa organiza tarefas, mantém foco, regula impulsos e gerencia tempo.
Um ponto importante:
não existe um exame de sangue ou de imagem que “prove” esse transtorno. Exames podem aparecer no processo para investigar outras hipóteses (por exemplo, questões do sono), mas não como “carimbo” definitivo.
🗂️ O que costuma ajudar levar para a consulta
- Boletins, relatórios escolares, cadernos antigos ou observações de professores.
- Lista de situações do cotidiano em que o problema aparece (trabalho, estudos, casa).
- Histórico de tratamentos anteriores (psicoterapia, medicação, avaliações).
- Um parente/companheiro que convive de perto, quando a pessoa se sente confortável.
Nos atendimentos do SUS, eu via que quem chegava com exemplos concretos (“eu começo cinco tarefas e não termino nenhuma”; “eu esqueço compromissos mesmo anotando”; “eu me perco no tempo”) avançava mais rápido do que quem vinha só com um rótulo. É aquele ditado adaptado:
menos caça ao nome, mais descrição do dia a dia.
🔍 Quem faz a síntese final do “quebra-cabeça”
Na prática, eu observo dois formatos que funcionam bem. No primeiro, o médico especialista conduz todo o processo e pede avaliações complementares quando necessário. No segundo, a pessoa faz uma avaliação psicológica/neuropsicológica e leva o relatório para o médico, que integra com entrevista, histórico e exame clínico.
O que eu considero um bom sinal? Quando o profissional consegue explicar
por que sim e também
por que não. Isto é: quais critérios foram atendidos, quais hipóteses foram descartadas e quais dúvidas ainda precisam de tempo para maturar. Diagnóstico sério tem essa humildade — não é “certeza instantânea”.
Exemplo fictício: o “João”, 27 anos, procurou avaliação por dificuldade de foco. Ele tinha histórico de noites mal dormidas e consumo alto de energéticos. Parte dos sintomas diminuiu com ajuste de sono e redução de estimulantes. O restante persistiu e aparecia desde a escola. A conclusão ficou mais segura porque a gente testou hipóteses, em vez de pular direto para um nome.
🧠 Neurologista pode diagnosticar TDAH? Quando essa rota faz sentido
Sim, pode — especialmente quando a história sugere que vale olhar com lupa o neurodesenvolvimento e outras condições que podem “imitar” dificuldades de atenção. Eu costumo sugerir neurologista/neuropediatra quando aparecem sinais como:
- suspeita de crises, tiques importantes ou outras alterações neurológicas;
- histórico de prematuridade, complicações no desenvolvimento ou condições neurológicas na família;
- mudanças abruptas de comportamento (o “antes e depois” muito marcado);
- queixas de sono relevantes (ronco intenso, sonolência diurna, insônia persistente).
Na minha experiência no SUS, eu já vi casos em que a “desatenção” era, na verdade,
cansaço crônico por sono fragmentado. Quando a pessoa dorme mal, o cérebro fica com o “modo economia de bateria” ligado. Aí não tem planner que resolva.
Exemplo fictício: a “Bianca”, 14 anos, estava com notas caindo e irritabilidade. Todo mundo apontou para um transtorno do neurodesenvolvimento. Na investigação, apareceu um quadro forte de insônia e uso de tela até de madrugada. Intervenções de higiene do sono e organização familiar mudaram o cenário. A avaliação ficou mais limpa para decidir o que, de fato, permanecia como dificuldade central.
💬 Psiquiatra diagnostica TDAH? O que costuma ser diferencial
Sim. E, muitas vezes, o psiquiatra é quem ajuda a separar o que é dificuldade de autorregulação do que é efeito de outros quadros que caminham junto. Na prática clínica, eu vejo três pontos em que uma boa avaliação psiquiátrica brilha:
- Comorbidades: ansiedade, depressão, transtorno bipolar, transtornos por uso de substâncias e outros podem embaralhar a apresentação.
- Impacto funcional: não é só “ser distraído”; é quanto isso atrapalha trabalho, estudos, finanças, relações, segurança no trânsito, autocuidado.
- Planejamento terapêutico: quando medicação entra em pauta, ela precisa ser indicada e acompanhada com responsabilidade, monitorando efeitos e riscos.
Eu já acompanhei em psicoterapia pessoas que chegaram com a autoestima esfarelada por anos de críticas. Quando o psiquiatra faz uma avaliação cuidadosa e explica o raciocínio, a pessoa costuma sentir um “clique”:
não é desculpa — é explicação. E explicação abre caminho para mudança.
Exemplo fictício: o “Marcos”, 39 anos, veio com queixa de procrastinação e impulsividade. Ele também bebia para “desligar a cabeça”. A avaliação psiquiátrica foi essencial para mapear o papel do álcool e do humor, e a psicoterapia ajudou a construir alternativas reais de regulação emocional. Sem esse olhar combinado, a intervenção ficaria torta.
🏥 SUS, convênio e particular: como o caminho costuma acontecer
Eu trabalhei anos na rede pública e posso dizer: o “caminho” muda conforme o serviço, mas alguns pontos se repetem. Na
atenção primária (UBS), é comum começar com uma conversa sobre queixa principal, rotina, sono, escola/trabalho e saúde geral. Quando há sinais persistentes e prejuízo relevante, costuma haver encaminhamento para especialista ou para uma equipe multiprofissional.
Em muitos municípios, as portas possíveis incluem ambulatórios especializados, serviços de saúde mental e, em algumas situações, CAPS (dependendo do caso e das comorbidades). No convênio e no particular, às vezes o acesso ao especialista é mais rápido, mas isso não garante qualidade. Eu já vi avaliação excelente no SUS e avaliação apressada no particular — e o contrário também.
O que eu aprendi é que vale prestar atenção em duas coisas:
tempo de escuta e
clareza do raciocínio. Quando o profissional pergunta sobre infância, escola, família, mudanças de vida, sono e humor, geralmente está fazendo o dever de casa.
Exemplo fictício: o “Pedro”, 16 anos, passou por três consultas rápidas que só perguntaram sobre notas. Quando ele chegou para mim, apareceu um histórico de bullying, ansiedade social e fuga escolar. O problema não era “falta de interesse” — era medo. Sem acolher isso, qualquer plano vira empurrar a pessoa para um lugar onde ela se sente ameaçada.
📋 Critérios clínicos: o que precisa existir para a hipótese ficar de pé
Sem entrar em jargão, eu explico os critérios de um jeito bem pé no chão. Para a hipótese se sustentar, normalmente precisa haver:
- Persistência: sinais não são “uma semana ruim”; eles se repetem por um tempo considerável.
- Início precoce: frequentemente há indícios desde a infância, mesmo que a pessoa só procure ajuda na vida adulta.
- Mais de um contexto: não basta acontecer só em um lugar. Se é só no trabalho, por exemplo, pode ser ambiente tóxico, sono, ansiedade ou outra coisa.
- Prejuízo funcional: o ponto não é ser “distraído”; é isso gerar perdas reais (acadêmicas, profissionais, sociais, financeiras, emocionais).
- Exclusão de outras explicações: o profissional precisa investigar hipóteses alternativas e comorbidades.
Se você quiser uma visão geral (sintomas, tipos e caminhos de tratamento), eu deixei tudo organizado na página sobre
o que é TDAH.
Eu já vi muita gente tentando se “provar” para o profissional — como se precisasse convencer alguém. Eu prefiro outra lógica:
vamos entender o funcionamento. Às vezes, a pessoa tem traços, mas não tem prejuízo relevante; às vezes, tem prejuízo, mas a origem é outra. Em ambos os casos, o cuidado pode ser necessário, só muda o foco.
👩🦰 E quando a apresentação é mais “quieta”?
Muita gente associa esse transtorno a hiperatividade visível, mas existe apresentação em que a pessoa parece mais “no mundo da lua”, com distração interna e cansaço mental. Em mulheres, isso pode passar batido por anos, porque socialmente se espera que elas “deem conta” e disfarcem. Eu já acompanhei pacientes que só perceberam o padrão quando o volume da vida aumentou (trabalho, filhos, estudos) e as compensações não seguraram mais.
🏫 Escola e trabalho: como recolher informações sem virar “detetive”
Uma parte que eu considero muito valiosa é transformar percepção em dados do cotidiano. Não precisa ser nada formal: às vezes, um relato bem escrito vale mais do que uma pilha de impressos.
🧑🏫 Para crianças e adolescentes
- Em quais matérias a dificuldade aparece mais? (leitura longa, matemática, produção de texto, provas com tempo)
- Como é a sala? (muito barulho, troca de professor, falta de rotina)
- O que funciona quando o(a) aluno(a) engaja? (tarefas curtas, instrução em passos, supervisão próxima)
- Comportamento social: interrompe, se envolve em conflitos, “viaja”, evita atividades?
Eu vi no SUS que, quando a escola descreve
situações em vez de dar adjetivos (“é preguiçoso”, “não quer nada”), o cuidado melhora muito. “Precisa de repetição de instrução”, “perde prazos”, “começa e abandona atividade” — isso ajuda a equipe a entender o padrão.
💼 Para adultos
- Quais tarefas você adia e quais você faz no automático?
- Onde você perde tempo: iniciar, manter, finalizar ou revisar?
- O que explode sua rotina: reuniões longas, e-mails, mudanças de prioridade, trabalho remoto?
- Que estratégias você já tentou (e por quanto tempo)?
Essas respostas ajudam muito a diferenciar dificuldades executivas persistentes de um período de sobrecarga. E, sinceramente, também ajudam a montar um plano terapêutico mais pé no chão.
🧭 Sinais de um caminho cuidadoso para chegar ao diagnóstico
Eu sempre digo que não existe “caminho perfeito”, mas existem pistas de que você está em boas mãos. Eu gosto quando o profissional:
- faz perguntas sobre infância, escola, trabalho, sono e humor (e não só sobre “foco”);
- explica critérios e diagnóstico diferencial com clareza;
- não promete “fechar” tudo em 20 minutos;
- convida você a trazer exemplos concretos e, quando possível, relatos de terceiros;
- te devolve uma síntese compreensível (o “porquê” da conclusão e o plano de cuidado).
Um sinal de alerta, para mim, é quando a conversa vira só uma lista de sintomas sem contexto. Eu já acompanhei pacientes que saíram de consultas se sentindo culpados por “não performarem” o transtorno do jeito esperado. Diagnóstico bom não exige atuação — exige história.
Exemplo fictício: a “Lívia”, 29 anos, passou por um atendimento em que o profissional só aplicou um questionário e, no fim, disse “deu positivo”. Ela ficou apavorada. Quando fizemos uma avaliação completa, apareceu que os sintomas tinham começado depois de um período de burnout. A intervenção precisava olhar para exaustão e limites, não para uma condição do neurodesenvolvimento. O nome muda, mas o cuidado continua sendo necessário.
🧩 Avaliação neuropsicológica no TDAH: o que ajuda (e o que não promete)
Eu faço avaliação neuropsicológica e gosto de ser bem transparente:
não existe “o teste” que define tudo. O que existe é um conjunto de tarefas e instrumentos que ajudam a entender o perfil cognitivo e como ele conversa com a vida real.
Na prática, a avaliação pode ajudar a:
- mapear atenção sustentada, controle inibitório, memória de trabalho, planejamento e velocidade de processamento;
- identificar padrões que sugerem outras hipóteses (por exemplo, dificuldades específicas de aprendizagem);
- produzir recomendações objetivas para escola e trabalho (adaptações, estratégias, organização do ambiente);
- dar uma linguagem mais precisa para o que a pessoa sente (“eu travo”, “eu me perco”, “eu acelero”).
E o que ela
não promete? Ela não substitui a entrevista clínica, não dispensa informações da família/escola e não serve para “provar valor” da pessoa. Eu sempre digo: a avaliação não é um tribunal, é um mapa.
Nos grupos terapêuticos, eu via como esse “mapa” fazia diferença: gente que se achava “bagunçada” entendia que precisava de
pistas externas (rotina visual, lembretes, dividir tarefa em pedaços) e parava de tentar vencer tudo “na força do ódio” — que, convenhamos, dura pouco.
📝 Laudo, relatório e atestado: entendendo sem “burocratês”
Eu percebo muita confusão com essas palavras — e, sinceramente, isso vira fonte de ansiedade. De forma geral:
-
- Relatório/parecer psicológico: documento em que o(a) psicólogo(a) descreve o processo de avaliação/atendimento, hipóteses trabalhadas, achados relevantes e recomendações, dentro das normas éticas da Psicologia.
- Laudo psicológico (incluindo neuropsicológico): costuma ser mais estruturado e técnico, com descrição de instrumentos, resultados e interpretação clínica. Ele pode subsidiar decisões (escola, trabalho, outros profissionais).
- Atestado/laudo médico: é emitido por médico e, quando necessário, traz classificação diagnóstica e condutas médicas.
Na prática, o que eu recomendo é perguntar claramente:
“Qual documento eu preciso e para qual finalidade?” Às vezes a escola pede algo genérico quando, na verdade, o que ajuda é um relatório com orientações pedagógicas. E, às vezes, a pessoa precisa de documento médico por exigência institucional. Alinhar isso evita frustração e gasto desnecessário.
🚧 Erros comuns que eu vejo no caminho do diagnóstico
📱 Autodiagnóstico por teste online ou vídeo curto
Eu não sou contra informação na internet — pelo contrário. O problema é quando a pessoa troca uma hipótese por uma certeza e começa a se encaixar em qualquer lista. Sintomas de desatenção e impulsividade podem aparecer em muitos contextos. Se a gente não olha o todo, vira “diagnóstico horóscopo”: serve para todo mundo e, no fim, não serve para ninguém.
😴 Ignorar sono, estresse e sobrecarga
No SUS, eu atendia muita gente em dupla jornada, com preocupação financeira e pouca rede de apoio. Nessas condições, o cérebro entra em modo sobrevivência. A atenção fica picotada, a memória falha, a irritabilidade aumenta. Isso precisa ser considerado, senão a gente confunde
contexto com
transtorno.
🧠 Não fazer diagnóstico diferencial
Ansiedade, depressão, trauma, TEA, dificuldades de aprendizagem, efeitos de medicações, uso de álcool e outras substâncias… tudo isso pode se misturar. Um bom profissional não “apaga” essas possibilidades — ele investiga.
Exemplo fictício: a “Cláudia”, 45 anos, buscou avaliação por desorganização. A história mostrava um luto recente e uma queda grande de energia e interesse. O foco do cuidado precisou ser o humor e o processo de luto, antes de qualquer conclusão sobre neurodesenvolvimento. Quando isso foi acolhido, o restante ficou mais nítido.
🧾 Para quem é este conteúdo, quando procurar ajuda e limitações
- Para quem é: pessoas que suspeitam de dificuldades persistentes de atenção/impulsividade, familiares, educadores e quem quer entender o caminho de avaliação com mais clareza.
- Quando procurar ajuda: quando há prejuízo real em estudos, trabalho, relações, finanças, segurança (por exemplo, dirigir) ou autocuidado; quando as dificuldades se repetem em mais de um contexto; ou quando há sofrimento emocional associado.
- Limitações: este texto é psicoeducativo e não substitui avaliação individual. Cada história tem nuances (contexto, saúde, idade, comorbidades) que só aparecem em consulta.
Aviso educativo: se houver risco imediato (ideias de autoagressão, violência, uso perigoso de substâncias, crise intensa), procure atendimento de urgência na sua cidade. Segurança vem primeiro.
🛠️ Depois do diagnóstico: o que costuma ajudar no dia a dia
Quando o diagnóstico é bem feito, ele vira ponto de partida — não ponto final. Na minha prática, o que mais ajuda costuma ser uma combinação de frentes, ajustada à realidade da pessoa:
- Psicoeducação: entender como a atenção e as funções executivas funcionam reduz culpa e aumenta autonomia.
- Psicoterapia: trabalhar organização de rotina, manejo de impulsividade, regulação emocional e crenças de incapacidade (“eu não dou conta”).
- Intervenções ambientais: reduzir distrações, criar pistas externas, simplificar decisões repetitivas, usar agendas e lembretes de forma inteligente.
- Acompanhamento médico quando indicado: discutir riscos e benefícios de medicação, monitorar resposta e ajustar o plano com segurança.
- Rede de apoio: família, escola, trabalho — quando entendem o funcionamento, deixam de “cobrar no grito” e passam a cobrar com estratégia.
Uma frase que eu repito muito em consultório é:
não é sobre virar uma pessoa perfeita. É sobre construir um sistema que te ajuda a funcionar melhor com o cérebro que você tem. E, sim, dá trabalho — mas dá resultado quando é feito com realismo.
✅ Fechando a ideia
Se eu pudesse resumir: o diagnóstico sério envolve
história, contexto e critério. Em geral, quem formaliza e integra tudo costuma ser um médico (psiquiatra, neurologista/neuropediatra, pediatra ou médico de família), e a avaliação fica muito mais robusta quando inclui o olhar psicológico e, quando necessário, neuropsicológico.
Eu vi isso de perto no SUS e na clínica: quando a pessoa encontra um caminho bem conduzido, a narrativa muda de “eu sou um problema” para “eu tenho um desafio e posso aprender a lidar com ele”. E isso já é meio caminho andando.
📚 Referências e leituras de qualidade
Manual
DSM (American Psychiatric Association)
Classificação
Internacional de Doenças (OMS) – CID
NICE
Guideline NG87 – ADHD: diagnosis and management
American
Academy of Pediatrics – publicações sobre TDAH
CDC
– informações públicas sobre ADHD
Conselho
Federal de Psicologia – orientações e resoluções